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ARTIGO DE OPINIÃO

Envolvimento parental: a difícil conciliação entre a escola e a família

Ser mãe e estar envolvida na aprendizagem, educação e escola dos filhos é um esforço hercúleo…

Ser mãe é um desafio diário! Ser mãe e estar envolvida na aprendizagem, educação e escola dos filhos é um esforço hercúleo…

Desde sempre ouvimos dizer que devemos apostar na relação escola-família para a melhoria do desenvolvimento e aprendizagem dos nossos filhos. Mas de facto, são poucas as realidades em que existe, de facto, uma relação entre a escola e a família. Provavelmente, se começarmos na educação pré-escolar, conseguimos ter muitos e bons exemplos de abertura da escola aos pais e mães, de tentativas de envolvimento nas rotinas diárias das crianças e de pais e mães interessados, preocupados, expectantes e, verdadeiramente, empenhados na construção conjunta de respostas para os filhos. Também por esta envolvência e proximidade, a educação pré-escolar, é o contexto mais protetor, estimulante e equitativo que encontramos ao longo do percurso escolar! 

Quando avançamos na escolaridade, as experiências dos pais e mães enquanto crianças resolvem relembrar-nos dos momentos vividos na escola, condicionando o nosso envolvimento e o modo como vemos a instituição escolar, os professores e o tipo de relação que podemos estabelecer (que, diga-se, a escola parece, de facto, a mesma com o passar de mais de 30 anos…). Também a escola parece mudar com o avançar da escolaridade e, embora se apregoe a sete ventos a importância, necessidade e tentativa de envolvimento parental, a realidade parece ser mais vivida de aparências, reuniões para cumprir calendário (sempre inconsequentes), workshops e tertúlias para inglês ver (em que o que conta é o número de participantes), do que um interesse numa participação parental efetiva na vida escolar. 

Com o contexto de pandemia que estamos a viver, entidades nacionais e internacionais enviam recomendações sobre a necessidade de maior proximidade com as famílias, maior abertura ao diálogo e, mais uma vez, o que se assiste é ao cerrar de fileiras, à criação de muros e barreiras, à comunicação por email (quando muitos pais e mães nem email têm ou sabem utilizar…).

Neste cenário catastrófico que descrevi, em que pais, mães e escola parecem estar de costas voltadas não é possível enunciar o culpado ou os culpados… de facto, este tem sido o grande problema: andarmos à procura da causa, dos responsáveis, quando nos devemos focalizar na resolução desta situação.

Como em qualquer relação, também esta deve basear-se numa cultura e clima de confiança e partilha, que favoreça um sentimento de pertença à comunidade educativa. A escola tem de dar este passo, tem de almejar a construção de uma cultura de escola participada por diferentes intervenientes, através de processos de suporte, acompanhamento, capacitação e retorno. A construção de relações mais positivas com a família implica a abertura ao seu envolvimento em processos de tomada de decisão e a disponibilidade para, em conjunto, se lidar com desafios emocionais, sociais e com conflitos que, realisticamente, surgem ao longo da vida escolar. 

Como todas as relações, também esta se baseia na construção de expectativas. Em vez de assumirmos que todos sabem o que é esperado de ambas as partes, é necessário que existam momentos para a construção de expectativas claras sobre o envolvimento parental, nos diferentes contextos e dinâmicas escolares. A definição conjunta de expectativas e de comportamentos esperados por todos os agentes educativos aumenta a autonomia e controlo e cria os alicerces para a construção de relações emocionalmente investidas.

Quando a premissa da educação inclusiva está em todas as diretrizes escolares e os documentos legais claramente direcionam a ação das escolas para a construção de uma escola promotora da equidade, a consolidação de relações de proximidade com a família deve ser uma das prioridades das lideranças. O desafio é urgente, principalmente no contexto pandémico em que vivemos. A incerteza diária e as novas formas de interagir socialmente devem suscitar a necessidade de se desenvolverem esforços concertados para estabelecer relações fortes e se promoverem medidas efetivas de abertura e proximidade com as famílias, de modo a tornar mais previsíveis e seguros os tempos que vivemos, apoiar a tomada de decisão refletida, partilhada e ponderada, promovendo, deste modo, uma cultura de escola mais coesa e solidária.

Os pais não têm manuais para a parentalidade, precisam de apoio neste processo, anseiam poder participar efetivamente nos processos educativos. Muitos pais também precisam de aprender a fazê-lo. Uma escola inclusiva deve valorizar a diversidade (até parental!) e capacitar os pais para este processo.

Joana Cruz é psicóloga. Doutorada em Psicologia da Educação pela Universidade do Minho. Trabalha na Câmara Municipal de Valongo onde implementa projetos de promoção do sucesso escolar. É Professora Auxiliar na Universidade Lusíada Norte.

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