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ENTREVISTA

O projeto ‘Anos Incríveis’ em Portugal

"Este é um projeto que responde muito às questões da saúde mental das crianças."

Maria Filomena Ribeiro da Fonseca Gaspar é Professora Associada na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Licenciada em Psicologia, com mestrado e doutoramento em Psicologia da Educação, é investigadora do núcleo POSTRADE do Centro de Estudos Sociais (CES) e do Laboratório Colaborativo “ProChild CoLab Contra a Pobreza e a Exclusão Social”.

O projeto ‘Anos Incríveis’ chegou a Portugal em 2003 e, desde então, como tem sido adaptado ao contexto nacional?

Quando falamos no projeto ‘Anos Incríveis’ estamos a falar de vários programas. O programa para os pais, mais conhecido por Anos Incríveis Básico, foi desenhado pela autora para crianças dos 3 aos 8 anos. Foi em 2003 que tivemos a primeira formação com esse programa para pais e iniciámos todo o processo de tradução dos materiais. Em 2008/2009 fizemos o primeiro grande estudo do programa para pais, em Gouveia, porque o objetivo era perceber como este poderia funcionar como um programa de promoção da saúde mental. O IDT – Instituto da Droga e da Toxicodependência financiou este estudo para dotarmos os pais de crianças dos 3 aos 8 anos com estratégias de parentalidade positiva. Esta investigação veio mostrar a eficácia e aceitação do programa, mas também que quando se trabalha com pais, não há sempre alteração do comportamento da criança na escola e, desta forma, começámos a traduzir e a legendar o programa para os educadores de infância e professores do 1º ciclo. O TCM – Teacher Classroom Management Program é um programa para capacitar professores para a gestão das suas salas. O primeiro grande estudo em Portugal com o TCM foi em 2010/2011, conduzido pela Vera Vale, professora na Escola Superior de Educação de Coimbra e dedicada à formação de educadores de infância. Foi assim que começámos e depois, a partir daí, foi sempre a crescer.

Ambos os programas são baseados em evidência, são programas em que podemos confiar por provocarem mudança no sentido desejado na maioria das crianças, com quem os professores e educadores de infância trabalham ou os pais se relacionam enquanto figuras parentais. Estes programas vão, não só promover trajetórias de desenvolvimento mais positivas, mas também vão prevenir trajetórias de desenvolvimento mais desadaptativas em crianças que sabemos que à partida que estão em risco; crianças que vivem em contextos com grande vulnerabilidade social, muitas vezes associada à pobreza e riscos sociais, onde não têm figuras de vinculação protetoras. São estas crianças que mais precisam de nós, que mais precisam que estejamos atentos.

Entre 2009 e 2013, tivemos um projeto com crianças em risco clínico, crianças que já tinham sinais preocupantes de comportamento disruptivo, de desregulação emocional. Em 2015/2016 tivemos um grande financiamento, através do programa EEA Grants. Este financiamento permitiu-nos trabalhar os dois programas: com o programa dos educadores de infância focamo-nos só na educação de infância; e, com o programa dos pais, focamo-nos em crianças em desvantagem socioeconómica, crianças que estavam em escalões sociais e que recebiam algum tipo de suporte social. Este foi um grande projeto social.

Em 2019, a Fundação Calouste Gulbenkian decidiu chamar a si aquilo que deveria ser a responsabilidade do Ministério da Educação, ou seja, a capacitação de jovens dos 0 aos 25 anos para a promoção das competências sociais e emocionais, através de programas de promoção da aprendizagem social e emocional. A promoção desta aprendizagem tem de ser feita com programas baseados na evidência e a Fundação Calouste Gulbenkian selecionou um conjunto de metodologias, que já tinham mostrado ser eficazes, e financiou-as como sendo metodologias de referência, para que diferentes estruturas da sociedade pudessem concorrer às Academias do Conhecimento.

A Fundação Calouste Gulbenkian está de parabéns, as fundações têm um papel muito importante, mas não podem substituir o sistema e, por isso, espero que rapidamente o sistema educativo perceba que temos de formar os agentes educativos para a promoção da aprendizagem social e emocional, através de estratégias promotoras do desenvolvimento social e emocional. Ainda em 2019, o projeto ‘Adélia’, que é um projeto da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos das Crianças e Jovens, selecionou o programa ‘Anos Incríveis’ para pais, para integrar três projetos piloto com entidades no Norte, no Centro e no Alentejo. No âmbito deste projeto, formámos 60 líderes no país, que estão neste momento a aplicar o programa com famílias, algumas delas em risco social, outras já no sistema de promoção e de proteção, ou com crianças que já foram retiradas da família para sua segurança.

Há uma autora que diz que cada família é infeliz à sua maneira e diria que todas as famílias têm riscos à sua maneira, só que há riscos que são mais visíveis e há riscos que são amortecidos. Esta é a nossa história, é uma história que começou em 2003 e estamos em 2021 e quando pensamos: qual foi a decisão mais acertada? Foi escolher estes programas.        

De que forma este projeto responde à necessidade de promoção da saúde mental, em Portugal?

Este programa é direcionado para crianças e a autora Carolyn Webster-Stratton desenhou-o para crianças com problemas de comportamento externalizante, que tinham necessidade de desenvolver competências sociais e emocionais, ou seja, crianças que apresentavam problemas de comportamento de início precoce. Os problemas de comportamento externalizante de início precoce e a ausência de competências sociais e emocionais aos 3 anos são fatores precursores de risco, principalmente quando a esse risco acrescem riscos de contexto e familiares. O mesmo se reflete nos jardins de infância, uma criança que tem problemas de comportamento externalizante cansa mais o educador, este sente-se esgotado na relação com esta criança e sente que não tem resposta. O educador pode não conseguir criar um contexto para amortecer o impacto destes problemas de comportamento de início precoce, como até os pode, sem intenção, amplificar, dando muita atenção a esta criança pelo comportamento negativo que ela tem. O grande objetivo é que isto deixe de acontecer, ou seja, que estas relações deixem de ser relações que, de forma negativa, estejam a contribuir para o aumento destes problemas. Ao conseguirmos intervir mais cedo e dotar estas crianças de competências sociais e emocionais, reduzimos os problemas de comportamento, mas também aumentamos a sua autorregulação e as competências sociais.

Temos porém de ter algum cuidado porque nem tudo são competências sociais e emocionais, uma criança que não tenha vocabulário está em risco porque não se consegue exprimir. Há competências-chave do desenvolvimento que têm de ser estimuladas e o currículo de educação pré-escolar não pode ser só focado em competências sociais e emocionais, a questão é que sem a componente social e emocional as outras competências não se desenvolvem.

Referimo-nos aos educadores de infância como aqueles que colocam alicerces ao conhecimento, as fundações, e as competências sociais e emocionais são este alicerce; permitem que a criança esteja atenta, regule emoções, seja capaz de resolver problemas, tenha iniciativa e, consequentemente, desenvolva a literacia, a numeracia, a consciência cultural e cívica.

Muitas vezes, a criança chega ao 1º ciclo já com um rótulo, passando menos tempo em interações positivas com os colegas e com os professores, adquirindo menos competências, comprometendo as suas aprendizagens. A partir daqui podem iniciar trajetórias de desenvolvimento que na pré-adolescência se podem manifestar em consumos precoces, sexualidade de risco, internalização, depressão e pensamentos suicidas. Os educadores e os professores quando trabalham com estas crianças referem que a parte mais difícil do seu trabalho é lidar com estas questões, para as quais nunca foram preparados, nem na formação inicial, nem na formação contínua. Nestes casos, a criança coloca desafios e o educador entra em stress, respondendo menos adequadamente até que pode chegar ao burnout. O educador em burnout fica com problemas de sono, de memória, com comprometimento emocional e depressão. Estas crianças fazem as famílias sofrer imenso e a forma como os contextos culpabilizam a família, mesmo não o dizendo diretamente, é muito prejudicial. De repente, temos educadores esgotados, famílias desligadas para se protegerem ou famílias deprimidas. Nós sabemos por exemplo que as mães que participam nestes programas de capacitação parental, reduzem a sintomatologia depressiva porque aumentam a autoeficácia e sentem outra vez que estão a ser capazes de mudar o curso da vida dos seus filhos.

Este é um projeto que responde muito às questões da saúde mental das crianças, mas também dos adolescentes, dos adultos e destas crianças quando forem pais e mães. Os ‘Anos Incríveis’ não é a resposta milagre mas é parte da resposta. 

Em que consiste a formação do programa ‘Anos Incríveis’ para educadores?

A base do programa é a relação com a criança. E esta relação é conseguida quando o educador percebe que tem de estabelecer uma relação individual com todas as crianças, mesmo com as crianças invisíveis, porque há crianças que não se notam, há crianças que dão tão poucos problemas que nós nem percebemos que elas estão lá.

O programa ‘Anos Incríveis’ implica que os professores e os educadores de infância estejam com os formadores, que nós chamamos de dinamizadores ou líderes, durante 42 horas presenciais distribuídas por 7 workshops de 6 horas. Habitualmente, fazemos workshops de um dia, com 6 horas cada um e com espaçamento entre si de três semanas a um mês. Como o programa é muito ativo, os educadores acabam por criar uma comunidade de aprendizagem, através de uma reflexão em conjunto, partilhando sucessos e desafios. Cada workshop tem uma temática, o primeiro dedica-se a conhecer como se desenvolvem relações positivas com as crianças e com as famílias, é a base de tudo, a relação. O segundo workshop é sobre o educador proativo – como é que o educador pode organizar os seus contextos, a sua sala, as suas rotinas, as suas regras para prevenir problemas. O terceiro workshop foca-se no que o educador quer ver acontecer de positivo. Nos workshops seguintes, trabalhamos o aumento dos comportamentos positivos e só depois começamos a falar da redução dos comportamentos negativos e de algumas estratégias para os reduzir. O último workshop consiste em tornar as crianças capazes de resolver os seus problemas. Estes sete workshops acontecem ao longo de 6/7 meses e entre estes, sempre que possível, os dinamizadores visitam a sala do educador de infância para o apoiar e suportar na sua atividade.

Os ‘Anos Incríveis’ não são didáticos, nós não ensinamos nada a ninguém, são colaborativos e ativos, o que caracteriza um programa baseado na evidência. Este programa está creditado em Portugal como uma oficina de formação, ou seja, os educadores que participam nestas oficinas têm créditos de formação.

O programa tem alguns fantoches, como o Dina, e materiais, como o ‘Dá cá mais 5’ para estabelecimento das regras na sala. A criança é um ser de brincar e o Dina entra no seu mundo e é percebido como um par, reduzindo a resistência e tornando a criança mais colaborativa. O programa incorpora em si tudo aquilo que fazemos, às vezes de forma dispersa. É um programa sequencial, não vou ensinar regulação de problemas sem antes ensinar a criança a acalmar-se, e não vou reduzir comportamento negativo sem ter estabelecido uma relação positiva com a criança. Esta sequência torna o programa eficaz em termos dos resultados, ou seja, é um programa SAFE – sequencial, ativo, focado nas competências sociais e emocionais e específico – trabalha competências específicas, como a autorregulação, a persistência e a capacidade de resolver problemas.            

Da experiência com a implementação do programa para educadores, qual a sua perceção sobre os desafios que estes vivenciam na sua prática?

Um dos grandes desafios que os educadores de infância expressam é a relação com as famílias. A formação inicial e a formação contínua dos educadores não respondem a este desafio, seja na relação com a família, seja noutras questões. Ainda hoje, quando se entra numa Escola Superior de Educação, os primeiros anos são iguais para profissionais que vão trabalhar com crianças dos 0 aos 12 anos (a Licenciatura em Educação Básica).

Os educadores expressam muito cansaço, porque estão muitas horas com crianças exigentes, e, ao mesmo tempo, sentem-se pouco valorizados. Há muitos pais que ainda veem o educador de infância apenas como acompanhante. Os educadores de infância também sentem que a sua especialidade não é tida em conta por muitos agrupamentos de escola e a formação extra não faz parte do seu horário de trabalho. Estes são alguns dos desafios, mas principalmente os educadores de infância acham que a sua formação não os prepara adequadamente e, por isso, usamos um modelo de formação diferente para os educadores se sentirem ouvidos, para refletirem com os pares e tornar a sua prática ainda mais intencional.

Quem trabalha com crianças tem de ter paixão, porque é um trabalho de co-construção diária.   

De que forma a validação deste programa em contexto nacional, contribui para a sua continuidade?

Permitiu que as Academias do Conhecimento tivessem escolhido os ‘Anos Incríveis’ como metodologia de referência, o que não aconteceria se não tivéssemos a validação científica. Permitiu também que a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção de Crianças e Jovens tivesse escolhido o programa ‘Anos Incríveis Básico’ para capacitação dos pais de crianças dos 3 aos 8 anos. Sem esta validação estes passos não teriam acontecido, nem teria sido integrado nos planos inovadores de combate ao insucesso escolar promovidos pelos municípios.

Nestes planos de combate ao insucesso escolar tem aumentado a consciência para a importância de trabalhar com as famílias.

A grande questão é o sucesso, mas nós não o conseguimos porque não temos equidade; se continuarmos a ensinar todas as crianças da mesma maneira, nem todas vão aprender.

Por outro lado, existe alguma vontade de que todos os educadores de infância e professores do 1º ciclo em Portugal tenham acesso a uma formação para os dotar de competências para a promoção da aprendizagem social e emocional, essencial para que as outras aprendizagens aconteçam. A maioria dos educadores e professores tem uma excelente intenção, mas estão muito cansados e nós temos que os apoiar para conseguirem ter relações positivas e de qualidade com as crianças e com as famílias.

Quais os próximos passos do projeto e ações em que os educadores podem participar?

Existem algumas ações por todo o país, dinamizadas por profissionais que fizeram a formação connosco e que agora podem dar formação aos educadores e aos professores. A Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra organiza esta oficina acreditada para educadores. Também a associação ‘Pais como Nós’ organiza esta formação para professores e educadores, como também para pessoas que querem ser dinamizadores do programa. A nossa equipa é incrível, porque tem uma filosofia colaborativa e genuína, o que contribui para a sustentabilidade do projeto e das ações com um modelo muito participativo, ativo e ligado às dificuldades do dia-a-dia na relação com as crianças e com as famílias.

Visitem a página do projeto ‘Anos Incríveis’ aqui!

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