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ENTREVISTA

A ESCOLA DO ROCK: EDUCAÇÃO MUSICAL E PARA A CIDADANIA

"Todas as peças foram pensadas para garantir que todos e todas desenvolvem competências de relacionamento interpessoal."

O Diretor Artístico da Escola do Rock – Nuno Alves – recebeu-nos em Paredes de Coura e mostrou como esta ‘escola’ é muito mais que música e rock.

A Escola do Rock Paredes de Coura pretende proporcionar um ensino musical completo e diversificado a jovens de diferentes contextos sociais e vias de ensino da música. Decorre em períodos de curta duração, num formato de residência artística e campo de férias com formações, workshops, ensaios, sessões de cinema, concertos e muito mais.

www.escoladorock.paredesdecoura.pt/

A Escola do Rock, sendo uma escola de ensino informal, como se enquadra no projeto educativo do município de Paredes de Coura?

A Escola do Rock surgiu como resultado de alguns projetos que fazíamos com a comunidade. Fomos conhecendo como é que os jovens se relacionavam com a música, que era uma questão nova na altura, e desenhamos a Escola do Rock pela relação com o Festival de Paredes de Coura e através da transição do ensino articulado para outros instrumentos.
É um projeto que não é fechado a Paredes de Coura, mas o objetivo é potenciar o contato entre os músicos de Paredes de Coura com alunos com outros percursos de formação na área da música e de outras cidades. Muitas vezes temos alunos do Porto que por terem vindo à Escola do Rock conseguem tocar nos melhores palcos da sua cidade. Na mesma lógica, conseguimos dotar os jovens de Paredes de Coura de experiências enriquecedoras na área do rock.
A experiência de aprendizagem da tour, para desenvolver colaborações e as boas relações entre as pessoas, é quase uma pós-graduação tanto para quem frequenta o ensino articulado como para quem aprende a tocar guitarra na garagem; podendo ser uma vivência quase profissional da música.

De que forma a inclusão norteia a Escola do Rock?

A inclusão muitas vezes está relacionada com grandes desequilíbrios sociais, diferenças culturais que não são questões prementes em Paredes de Coura.
Neste momento, trabalhamos a relação entre o meio rural e o urbano garantindo que somos todos iguais. O presidente da câmara de Paredes de Coura apresenta esta ideia várias vezes com expressões como – “o céu aqui é igual ao de Berlim”.

A inclusão surge através da oportunidade de os jovens de Paredes de Coura explorarem os maiores centros urbanos, bem como no convívio intergeracional, uma das caraterísticas da Escola do Rock. O nosso objetivo é que todos e todas se sintam confortáveis.

Temos apoio social, garantindo a inscrição e suporte financeiro de, por exemplo, alunos da Orquestra Geração, beneficiando estes alunos bem como os jovens de Paredes de Coura que juntos criam um grupo diversificado. Esta diversidade de experiências, que queremos potenciar, enriquece tanto os intervenientes como os próprios resultados alcançados na tour. Todas as peças foram pensadas para garantir que todos e todas desenvolvem competências de relacionamento interpessoal.

Quais os públicos que participam nas atividades da Escola do Rock?

A Escola do Rock foi pensada inicialmente para a adolescência porque achamos que havia pouca oferta para esse público. Para assegurar o desenvolvimento sustentável deste projeto, procuramos incluir nas atividades jovens a partir dos 10 anos, para que tenham mais oportunidades de se relacionarem com a música. Por outro lado, com os idosos desenvolvemos alguns workshops de criação para que, em conjunto com os jovens da Escola do Rock, escrevam músicas que possam ser tocadas.

Desenvolvemos também workshops de ambientação onde os idosos podem tocar bateria e vivenciar novas experiências musicais. Estamos continuamente em contato com a escola profissional, que oferece cursos de audiovisual e de comunicação, ajudando-nos a desenhar outros workshops.

Para além dos alunos portugueses, temos vários alunos galegos porque um dos nossos objetivos é quebrar a fronteira. Somos muito bem recebidos na Galiza, temos parcerias com uma escola de Pontevedra, com projetos de inclusão, com a escola de Nigran que vai participar na nossa tour, com a escola de Tomiño que colabora connosco no projeto ‘Play to Grow’, e confesso que o nosso projeto é mais valorizado na Galiza do que aqui.

Numa semana não é possível concretizar todas as ideias, por isso o nosso objetivo é que a Escola do Rock aconteça mais vezes ao longo do ano, como nas férias da Páscoa, do Natal e durante várias semanas nas férias de verão. Há um longo caminho pela frente, porque fazer um concerto e tocar em festivais já é relativamente fácil para nós, o desenvolvimento sustentável da Escola do Rock é o caminho mais complexo a seguir.

Para além da música que outras competências podem ser desenvolvidas pelos participantes?

Desde arrumar as cadeiras no fim do concerto, dar entrevistas para a televisão ou para a rádio, estar em presença dos jornalistas, tudo faz parte da experiência de pertencer a uma banda rock. Por exemplo, no festival fazem o soundcheck que é completamente diferente de um soundcheck num teatro – é muito mais rápido e mais tenso, por vezes as condições não são as melhores e até alguns instrumentos das bandas estão avariados. Tudo isto é aprendizagem que normalmente não surge em contexto de educação formal.

Introduzimos sempre na Escola do Rock algumas atividades, como fazer um videoclipe, realizar um documentário, realizar um filme e este ano estamos a apostar na rádio. Como a rádio é aberta à população em geral e não é necessário saber tocar um instrumento, os alunos da Escola do Rock aproximam a população do rock e da cultura. Queremos que esta experiência seja a preparação para uma entrevista de emprego, para a entrada no mercado de trabalho.

Qual o impacto da Escola do Rock na comunidade?

Temos que diferenciar vários tipos de impacto. Um é o impacto mediático que orgulha a população local. Outro impacto é na relação dos alunos da Escola do Rock com a música, que muitas vezes pode ser positivo ou negativo, muitos deles deixam a música depois da experiência na Escola do Rock, o que contribui para o seu desenvolvimento profissional.

Um impacto que ainda não conseguimos medir é o da aproximação da comunidade de Paredes de Coura à cultura. Enquanto o festival de Paredes de Coura aproxima a comunidade economicamente, culturalmente esta continua afastada do festival. A Escola do Rock sente este afastamento e, por isso, dinamiza continuamente atividades que incluam a participação da comunidade.

A nossa perspetiva é tentar complementar o ensino musical persistindo para que os alunos não desistam da aprendizagem musical.

O impacto mediático dá-nos argumentos para mostrar que a Escola do Rock funciona, mas a nossa preocupação número um são os alunos. A temática do rock foi uma escolha arriscada, pelo preconceito ainda associado às bandas de rock, mas tem sido muito divertido para nós e em palco.

Acompanhe a Escola do Rock aqui!

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