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Vamos à Escola – desenvolver conceitos fundamentais sobre as alterações climáticas

“Qualquer espaço que tenha jovens e que queira perceber um pouco mais sobre o tema das alterações climáticas também está abrangido por esta iniciativa.”

Islene Façanha é gestora de projetos e analista de políticas na área do clima e da energia na Associação ZERO. Com formação de base em Economia, é doutorada em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável.

Como surgiu a ideia de criar a iniciativa “Vamos à Escola”?

A iniciativa “Vamos à Escola” está incluída no âmbito do projeto Ativa CLIMACT, financiado pela Comissão Europeia através do programa DEAR – Development Education and Awareness Raising (Educação para o Desenvolvimento e Aumento da Consciencialização, em português) e coordenado pela Oxfam Novib. A iniciativa “Vamos à Escola” é uma das atividades nacionais que desenvolvemos no âmbito deste projeto. Ao todo, somos 20 organizações de 12 Estados Membros da União Europeia, e também do Reino Unido, que colaboramos em conjunto para a consciencialização dos jovens para o impacto das alterações climáticas nas suas vidas. Cada país tem as suas atividades nacionais, mas também colaboramos a nível pan-europeu.

Em Portugal, a Associação ZERO implementa a iniciativa “Vamos à Escola” incluindo também a comunidade, não sendo só as escolas que são incluídas no projeto, mas qualquer espaço que tenha jovens e que queira perceber um pouco mais sobre o tema das alterações climáticas também está abrangido por esta iniciativa.

Este é um projeto muito personalizado, em que qualquer problema local ambiental, que é percebido pelos jovens, pode ser tema do workshop inserido no âmbito do projeto Ativa CLIMACT. Por exemplo, os jovens podem identificar um problema associado à poluição do rio na sua cidade, ou um problema associado à separação do lixo na sua rua, e nós personalizamos o workshop ou atividade conforme a necessidade temática de cada local.

De que forma o desenho desta iniciativa responde à necessidade da promoção da literacia ambiental e da promoção de um maior conhecimento sobre as alterações climáticas?

A conceção do projeto em si foi um trabalho colaborativo entre as vinte organizações das quais falei anteriormente, de vários países, como Portugal, a Bulgária, a Roménia e a Chéquia.

Pensamos num projeto que tivesse a colaboração e a participação dos jovens desde o início e abrangesse 3 componentes: a comunicação, a formação e a mobilização; e, todas estas componentes incluem a participação dos jovens. Por exemplo, para a criação da página online do projeto, para disponibilizar informação e promover a literacia sobre as alterações climáticas, organizámos grupos focais com jovens para perceber porque é que ainda não estavam envolvidos na ação climática e mencionaram questões muito pertinentes como a linguagem ser habitualmente demasiado científica, e o tema em si ser muitas vezes apresentado de uma forma aborrecida e com uma linguagem que não atrai os jovens nem é visualmente apelativa.

Para promover a literacia ambiental, incluímos os jovens e desenvolvemos as atividades do projeto com uma linguagem que fosse mais apelativa e dinâmica. Todas as atividades que fazemos são assim, quando vamos às escolas as apresentações são sempre dinâmicas, promovemos energizers entre os jovens para percebermos o que já sabem e podermos trabalhar o tema de acordo com as suas necessidades. É também uma forma de educação informal e formal que inclui a participação dos jovens.

O projeto funciona desta forma e tivemos e continuamos a ter bons resultados. Começou durante a pandemia, e mesmo assim conseguimos que corresse muito bem. Infelizmente o projeto termina agora em julho, ao fim de quatro anos de atividade, mas vamos tentar retomar o projeto no futuro com um novo financiamento.

Qual tem sido o feedback obtido por parte dos alunos, dos professores e da comunidade em geral?

Por parte da comunidade, no ano passado recebemos uma menção honrosa nos Prémios Verdes da revista Visão. Para mim, como coordenadora do projeto, e sendo este o primeiro projeto que comecei a coordenar na Associação ZERO, foi muito gratificante, é muito bom ver o projeto caminhar com as suas próprias pernas. Depois da comunicação inicial do projeto tivemos uma procura muito maior.

Por parte dos alunos e dos professores, depois de cada atividade avaliamos a sua satisfação. O feedback dos alunos e dos professores é diferente. Por isso, é importante ter ambos. Muitas vezes acontece que professores e alunos têm uma visão diferente sobre as atividades e é importante termos acesso às duas perspetivas.

Os alunos gostam da dinâmica, habitualmente não gostam de estar parados. Os grupos de jovens são muito heterogéneos, podem ter idades entre os 15 e os 35 anos, e as atividades são personalizadas de acordo com o público. Fazemos sempre uma investigação inicial sobre o perfil dos jovens para as atividades irem ao encontro das suas necessidades. E, no final, esta abordagem é muito valorizada pelos alunos, principalmente as atividades em que saímos da sala de aula para um espaço exterior e mais informal.

Os professores também têm fornecido um feedback positivo. Fizemos uma formação para educadores no geral, onde incluímos professores e também profissionais que trabalham com jovens na educação informal, e o feedback foi muito positivo – primeiro porque contou como horas de formação, mas também pela capacitação nesta temática e pela aprendizagem de novas ferramentas. Os momentos de troca de experiências entre os participantes são sempre muito valorizados e tentamos sempre incluir esses momentos de reflexão e partilha nas atividades, para percebermos que soluções podem funcionar.
O feedback recebido tem sido uma excelente fonte de aprendizagem, ajuda-nos a refletir sobre as atividades desenvolvidas e ajustar o nosso caminho ao longo do projeto. Na implementação e dinamização das atividades, contamos com a colaboração de um facilitador das atividades, com conhecimento sobre as alterações climáticas. E vamos sempre trocando impressões, monitorizando as atividades e percebendo o que está a funcionar e o que precisa de ser alterado ou revisto.

Este processo de reflexão é muito importante para o sucesso do projeto. No âmbito da parceria pan-europeia, reunimos uma vez por ano presencialmente e vamos trocando experiências uns com os outros sobre a forma como está a decorrer o projeto. É interessante porque apesar de sermos um país pequeno, chegamos a mais de 10 mil jovens.

Da experiência com a implementação da iniciativa “Vamos à Escola”, qual a sua perceção sobre os desafios encontrados?

Quando comecei a trabalhar no projeto, primeiro tive de perceber como ia encontrar os jovens para participarem, principalmente jovens que não estivessem envolvidos na ação climática mas com interesse na temática. A preparação dos materiais foi outro desafio. Tornar o assunto atrativo é um desafio constante, ao mesmo tempo que tentamos perceber como podemos trazer mais pessoas para estarem sensíveis ao tema.

Outro desafio é o de criar atividades para um público tão amplo em termos de intervalo de idades (dos 15 aos 35 anos). Temos grupos com jovens muito diferentes e é fundamental perceber com que jovens estamos a falar, a quem devemos dirigir as atividades para tornar o projeto parte do seu quotidiano.
Com o sucesso do projeto também surge outro desafio, que é a procura e a forma como conseguimos dar resposta com uma equipa de duas pessoas. Temos uma pessoa que dinamiza as atividades em todo o território nacional e fazemos por chegar a zonas do interior do país que normalmente não têm este tipo de atividades. Dentro das grandes cidades também tentamos trabalhar nos bairros, que normalmente não recebem essas atividades. Para ultrapassarmos o desafio da grande procura e também para chegarmos a um maior número de jovens, trabalhamos com associações de moradores e associações locais que fazem a mediação com os jovens, porque estes tendem a ficar desconfiados quando vão algumas pessoas de fora do seu contexto e é benéfico ter intermediários para facilitar a organização das atividades.

Quais os próximos passos da iniciativa e de que forma é que as escolas e outras entidades da comunidade podem usufruir da mesma?

Desenvolvemos uma página online – a Ativaclima.pt -, em que qualquer pessoa, escola, grupo de jovens ou instituição formal, pode obter informações sobre o tema das alterações climáticas e solicitar as nossas atividades, como por exemplo, organizar uma exposição com materiais do projeto, ou solicitar um dinamizador de uma ação sobre o tema das alterações climáticas. Nós tratamos de tudo a custo zero, só precisamos de organizar agendas. Neste âmbito já fomos a universidades, a muitas escolas, a associações, fizemos também uma parceria com uma organização em Viseu. Por vezes temos muitas organizações de pequena dimensão que não têm recursos, mas têm muito boas ideias e a Associação ZERO partilha os recursos.

Principalmente neste ano eleitoral, precisamos abrir a mente das pessoas para assuntos que tocam o nosso dia-a-dia e, desta forma, temos várias parcerias com organizações em território nacional, com quem trabalhamos em conjunto. Este projeto é uma cocriação e a ideia é que todos os envolvidos participem no processo de criação, tanto do projeto como de soluções sobre o tema das alterações climáticas.

Saiba mais sobre a iniciativa ‘Vamos à Escola’ e contacte a equipa aqui!

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