As escolas reconhecem que este é um tema relativamente fácil de trabalhar de forma interdisciplinar, o que tem gerado bastante interesse por parte dos professores.

Como surgiu a ideia de criar o projeto MOFWaste?
Falamos muitas vezes do MOFWaste, mas importa clarificar o nome completo do projeto: Museu do Desperdício Alimentar. Na altura, considerámos pertinente associar a temática do desperdício alimentar à ideia de museu porque, em regra geral, os museus são espaços onde observamos peças do passado e somos convidados à reflexão. E questionámo-nos — porque não associar o desperdício alimentar a esta lógica? Trata-se de uma realidade que já deveria pertencer ao passado. Na sociedade em que vivemos, marcada pela abundância, o desperdício não faz sentido; paradoxalmente, é precisamente essa abundância que muitas vezes o potencia. A ideia do “museu” surgiu como forma de nos confrontarmos com o problema e de o associarmos simbolicamente a algo que já devia estar ultrapassado.
O projeto nasce também da experiência de um colega, Rui Pedro Almeida, membro da Associação Rio Neiva, que em 2005 trabalhou esta temática no festival Andanças. Na altura, constatou que existia muito desperdício alimentar no evento e teve a ideia de começar a pesar o desperdício, como forma de sensibilizar e provocar reflexão. Todos sabemos que o desperdício existe, mas quando somos confrontados com números concretos, o impacto é maior, os dados tornam o problema mais real e despertam uma reação. O Rui Pedro trouxe esta proposta para discussão em equipa, para avaliarmos o interesse e a pertinência de desenvolvermos a temática. Na Associação Rio Neiva trabalhamos diversas áreas relacionadas com a biodiversidade e entendemos que fazia todo o sentido integrar também a sustentabilidade alimentar no nosso trabalho.
Em 2021, obtivemos financiamento para dinamizar workshops de prevenção do desperdício alimentar. Através dessas ações, trabalhámos com o público em geral estratégias de reaproveitamento integral dos alimentos. Nesse mesmo ano, o programa de férias de verão ECO CAMP já existia e, como estávamos a lançar a primeira versão do MOFWaste, considerámos que fazia todo o sentido integrar este projeto na proposta de atividades do programa. Organizámos, assim, o Eco Camp de verão, dirigido aos mais jovens, articulando-o com os objetivos do MOFWaste. Começámos então a perceber o impacto destas iniciativas na perceção de crianças, jovens e adultos. Tratava-se, contudo, de um projeto de curta duração, de abril a novembro, e com uma execução limitada. Isto levou-nos a refletir sobre a possibilidade de levar a temática do desperdício alimentar para as escolas. Funcionou quase como um projeto-piloto, no qual desafiámos alunos e professores a pesar o desperdício. Mais uma vez, partimos da ideia de que todos sabemos que o desperdício existe, mas são os números que nos fornecem informação quantitativa e que têm um impacto direto na perceção do problema.
Realizámos um período experimental de duas semanas, durante o qual pesámos diferentes tipos de desperdício: o desperdício do refeitório, produzido diretamente pelos alunos e o desperdício resultante da confeção e preparação das refeições, por parte dos funcionários. A experiência correu bem e a escola manifestou interesse em dar continuidade ao projeto. É desta forma que surge a continuidade do projeto em 2025, esta nova edição do MOFWaste foi financiada pelo programa IMPETUS for Citizen Science da União Europeia, que permitiu replicá-lo de forma mais estruturada, com base na abordagem da ciência cidadã, aproximando a ciência e a promoção da saúde do contexto escolar.
De que forma o desenho deste projeto responde à prevenção do desperdício alimentar?
O projeto assenta numa metodologia simples e participativa, baseada na ciência cidadã, cujo objetivo é perceber e quantificar o desperdício alimentar. Para tal, pesam-se os diferentes tipos de desperdício e os alunos são confrontados com os valores obtidos. Enquanto Associação Rio Neiva, não nos limitamos a realizar apenas mais uma sessão de educação ambiental, pretendemos colocar os alunos no centro da resolução e prevenção do desperdício, fornecendo-lhes ferramentas de ciência cidadã e aproximando-os do método científico através da recolha e registo de dados.
A edição mais recente do projeto incorporou também a cocriação, incentivando alunos e comunidade a desenvolver recomendações para a prevenção do desperdício. Ao dar estas ferramentas e colocar alunos e professores à frente da prevenção, ultrapassamos a lógica unidirecional de uma simples sessão de educação alimentar. Ao envolver metodologias participativas, permitindo que os alunos observem, por exemplo, que num único dia podem ser desperdiçados 50 kg de comida na cantina da sua escola, aproximamos o tema da realidade e tornamo-lo mais concreto, consistente e capaz de promover mudanças no conhecimento e nos comportamentos.
Deixem-me acrescentar ainda uma nota relativamente ao projeto. Uma das constatações que fizemos é que, muitas vezes, estávamos a trabalhar “no fim da linha”, ou seja, na fase final do desperdício alimentar. No entanto, durante as sessões de capacitação providenciadas por nós, Rio Neiva, íamos às cantinas observar como os alunos se alimentavam e percebíamos que muitos não sabiam fazer escolhas equilibradas. Por exemplo, se num determinado dia havia peixe na ementa, alguns limitavam-se a colocar apenas batatas no prato.
Antes mesmo de continuarmos a focar-nos exclusivamente no desperdício, ficou claro que é fundamental existir um projeto de educação alimentar. Por isso, procurámos criar momentos pontuais, como workshops nas escolas, para reforçar esta sensibilização: o que podemos comer? Podemos introduzir algas marinhas? E a salicórnia? Estas plantas menos comuns permitem diversificar a alimentação, introduzindo sabores e texturas a que os alunos normalmente não estão habituados. Procuramos sempre proporcionar estas experiências porque, na verdade, os alunos são muitas vezes um reflexo do que veem em casa.


O projeto estruturou-se em três momentos-chave: a capacitação dos funcionários da cantina, alunos e professores, com apresentação do protocolo, da ficha de monitorização e realização de um momento-teste de pesagem; a recolha e registo de dados numa lógica de Ciência Cidadã; e, por fim, oficinas de cocriação para a definição de estratégias de redução e mitigação do desperdício alimentar.
Vários professores têm-nos sublinhado que este projeto precisa de ir além da escola, é necessário envolver mais a comunidade. Existem pessoas muito comprometidas com a causa, como os professores e funcionários das cantinas, e tem-se falado na criação de estratégias que integrem também os encarregados de educação, pois eles são uma peça-chave. Os alunos podem até participar na pesagem do desperdício, mas este trabalho precisa de ser contínuo, consistente e prolongado ao longo do tempo para realmente produzir mudanças de comportamento.
Que mudanças de comportamento têm observado nos alunos após a participação no projeto?
Este é um trabalho que desenvolvemos com muitas turmas. Na última edição, estiveram envolvidas mais de 500 pessoas no projeto. Ainda assim, sentimos que nunca conseguimos chegar a todos. Para nós, é particularmente gratificante quando os alunos, sobretudo os mais novos, do 5.º e 6.º anos, nos abordam mesmo depois de o projeto terminar para dizer que já estão mais atentos ao desperdício, inclusive em casa. Isto revela uma alteração de comportamento. A sensibilização deixa de se limitar ao contexto escolar e passa para outra dimensão: da casa e da família. Parece-me que, especialmente os mais novos, ficaram bastante sensibilizados e querem também tentar prevenir o desperdício. Querem ser parte ativa na mudança.
Outra coisa que senti foi que, quando realizávamos as ações de sensibilização no início do projeto e perguntávamos: “Acham que podem fazer alguma coisa para prevenir o desperdício?”, a resposta era, muitas vezes, de total apatia. No entanto, no final do projeto, já se sentiam mais confiantes e com mais voz para propor soluções e agir. Por isso, acredito que existe, de facto, uma certa mudança de comportamento, não na totalidade da comunidade educativa, mas já se nota alguma transformação na forma como o tema é pensado e encarado.
Qual tem sido o feedback obtido por parte dos alunos, dos professores, das escolas e das comunidades onde têm implementado o projeto?
O projeto terminou do ponto de vista do financiamento, ou seja, deixou de contar com apoio financeiro. Ainda assim, continuamos a ter escolas interessadas em dar-lhe continuidade. As escolas reconhecem que este é um tema relativamente fácil de trabalhar de forma interdisciplinar, o que tem gerado bastante interesse por parte dos professores. Também ao nível do município existe a consciencialização de que esta é uma problemática real e que exige uma resposta mais consistente. Há, por isso, disponibilidade para colaborar e unir esforços, entre comunidade, associações e restantes entidades, no sentido de trabalhar esta temática de forma articulada. Ainda recentemente tivemos o interesse de um agrupamento de escolas de Aveiro em conhecer o projeto e perceber de que forma o poderiam replicar no seu contexto.


De facto, a metodologia é simples de aplicar, passa, essencialmente, por realizar a pesagem do desperdício no final das refeições. O feedback tem sido muito positivo e há um reconhecimento claro de que o projeto pode ter um impacto real na redução do desperdício alimentar.
Da experiência com a implementação do projeto MOFWaste, qual a V/ perceção sobre os desafios encontrados?
Desde logo, o principal desafio foi a própria abordagem. Ao iniciarmos o projeto, foi quase como se “invadíssemos” o espaço da cantina que é um contexto muito próprio, com dinâmicas muito específicas. Rapidamente percebemos que é um ambiente exigente, as equipas são pequenas, o tempo para preparar as refeições é curto e a pressão do dia a dia é grande.
Na minha perspetiva pessoal, o desafio inicial passou por conseguir explicar a importância do que íamos fazer e garantir que os funcionários compreendiam o objetivo do projeto. Eles próprios têm consciência de que existe muito desperdício, mas houve uma barreira inicial que teve de ser ultrapassada. Essa barreira foi sendo superada com empatia. Foi fundamental colocarmo-nos no lugar deles, ouvir o que tinham a dizer e pedir que partilhassem connosco as boas práticas que já implementavam para reduzir o desperdício. Procurámos trabalhar em conjunto, dar-lhes voz e reconhecer o seu papel enquanto agentes educativos. Os funcionários das cantinas desempenham um papel muito ativo e relevante neste processo. Ainda hoje, alguns funcionários me abordam na rua para falar sobre o tema e demonstram vontade de continuar a trabalhar esta questão.
Existem boas práticas ou exemplos concretos que gostaria de destacar resultantes da implementação do MOFWaste?
Sim, lembro-me de, numa das escolas, referirem que inicialmente utilizavam sobretudo legumes frescos. No entanto, verificaram que o tempo de conservação e a durabilidade desses alimentos eram mais reduzidos, o que acabava por gerar mais perdas. Perante essa realidade, optaram, em alguns casos, por recorrer a legumes congelados. É verdade que isso levanta também a questão do resíduo associado às embalagens de plástico, mas constataram que, ao utilizarem produtos congelados, conseguiam reduzir o desperdício alimentar. Foram igualmente adotadas algumas estratégias de reaproveitamento no próprio processo de confeção. Por exemplo, houve uma mudança na preparação de determinados legumes, anteriormente retiravam a casca, mas passaram a utilizá-los na totalidade, por exemplo, na preparação de sopas. Esta prática revela já uma maior sensibilização para a redução do desperdício na fase de confeção.
Para além das medidas implementadas na cantina, recordo-me também de projetos que já existiam na escola, como a compostagem, mas que estavam inativos. Alguns professores decidiram reativá-los, procurando encaminhar parte dos resíduos orgânicos gerados. Desta forma, estabeleceram-se ligações com outras iniciativas e reforçou-se uma abordagem mais integrada da gestão do desperdício.
Quais os próximos passos do projeto e de que forma é que as escolas e outras entidades de ensino podem usufruir dos resultados do mesmo?
Enquanto projeto financiado, trabalhámos com seis escolas, cinco do município de Esposende e uma de Viana do Castelo. Numa edição posterior, conseguimos que três escolas voltassem a abraçar o projeto. Naturalmente, não foi com a mesma duração nem com os mesmos recursos da edição financiada. Por exemplo, algumas escolas decidiram retomar a iniciativa apenas durante a Semana da Alimentação, em outubro, realizando novamente a pesagem do desperdício ao longo dessa semana. Do ponto de vista da recolha e análise de dados, isso acaba por não ser tão relevante para nós, uma vez que a duração é diferente e não permite uma comparação direta com os resultados obtidos anteriormente. Ainda assim, o mais importante é o envolvimento e a continuidade da ação.
Considero que é um projeto muito fácil de replicar. Na altura, criámos várias ferramentas de apoio, como um protocolo e uma ficha de monitorização, disponibilizados de forma aberta no site, para que qualquer escola pudesse adaptá-los à sua realidade. A metodologia é simples e acessível. Claro que é sempre vantajoso contar com um técnico para dinamizar o momento inicial de capacitação, explicar o que é a ciência cidadã, como utilizar o protocolo e como preencher a ficha de monitorização. No entanto, mesmo que não exista essa sessão formal de capacitação, acredito que o projeto pode ser implementado com relativa facilidade em diferentes contextos escolares.
Para mais informações sobre o Projeto MOFWaste consulte aqui.