“para ajudar os alunos a protegerem-se nos seus hábitos de consumo de informação face à desinformação”

Como surgiu a ideia de criar a iniciativa “Pinóquio na Escola”?
Começando pelo início, no Polígrafo sempre realizámos várias sessões de literacia mediática em escolas, universidades e, por vezes, noutras organizações privadas ou públicas que demonstrassem interesse em aprofundar o conhecimento sobre o combate à desinformação. Trata-se de uma atividade que mantemos até aos dias de hoje, de forma totalmente graciosa, por exemplo, integrada em projetos editoriais que temos em curso.
No caso do Pinóquio na Escola, a iniciativa acabou por surgir de forma totalmente orgânica. Fomos convidados pela Fundação Calouste Gulbenkian a realizar uma pequena formação interna, também a título completamente gracioso. Tratou-se de um workshop de um dia, no qual promovemos uma troca de experiências entre as duas organizações sobre o combate à desinformação, área em que a Fundação também desenvolve um trabalho relevante. Passados alguns meses, a Fundação lançou-nos o desafio de pensar num projeto com a missão de combater a desinformação, liderado pelo Polígrafo, uma vez que tinha interesse em desenvolver uma iniciativa direcionada às escolas em Portugal. A génese do Pinóquio na Escola nasceu, assim, da interação entre as duas instituições.
A partir desse momento, comecei a desenhar um projeto que fizesse sentido, alinhando o know-how do Polígrafo e da Fundação, e que, simultaneamente, se enquadrasse na nossa atividade diária. O primeiro rascunho pouco tinha a ver com aquilo em que o Pinóquio se viria a tornar, era menos ambicioso e menos interligado, mas constituiu o ponto de partida para a criação do Pinóquio na Escola. Esse processo resultou da identificação de uma lacuna, não existia nenhum projeto semelhante em Portugal, e da conjugação de vontades entre duas instituições.
O projeto foi desenhado pelo Polígrafo, afinado ao longo de várias conversas com a Fundação e, progressivamente, começou a ganhar vida própria. Com a continuidade da iniciativa, juntaram-se outras entidades e organizações, como a Representação da Comissão Europeia em Portugal, o Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal, a Agência Nacional Erasmus+ Juventude / Desporto e Corpo Europeu de Solidariedade e, na primeira edição, a Direção-Geral da Educação.
De que forma o desenho desta iniciativa responde à promoção da literacia mediática, especificamente no que se refere à literacia contra a desinformação?
O projeto encontra-se atualmente na sua segunda edição. Houve uma primeira edição que, no fundo, funcionou como projeto-piloto, durante a qual realizámos alguma experimentação e procurámos perceber o que correu bem, menos bem e o que necessitava de ser aprimorado. A nossa primeira preocupação foi tentar abranger todo o território nacional, incluindo regiões que, por um motivo ou por outro, seja por falta de acessibilidade ou por menor presença de organizações nos seus territórios de influência, têm menos oportunidades de acesso a este tipo de iniciativas. O segundo critério prendeu-se com a vontade de não desenvolver um projeto que se esgotasse na realização de sessões presenciais de literacia mediática, após as quais professores e alunos deixassem de ter contacto com estas temáticas. Foi isso que nos levou a criar o concurso nacional. Este concurso permite-nos não só ir às escolas presencialmente, estando aberto à participação de todas as escolas, como também desenvolver um website com materiais didáticos dirigidos a docentes e alunos. Nesse espaço, disponibilizamos vídeos produzidos pelo Polígrafo, com dicas práticas para ajudar os alunos a protegerem-se nos seus hábitos de consumo de informação face à desinformação, bem como materiais provenientes da própria União Europeia, muitas vezes já concebidos com uma vertente pedagógica e pensados para formadores. Ou seja, houve sempre a preocupação de deixar um impacto que não se esgotasse no projeto em si. Na verdade, quando concebemos a primeira edição, não sabíamos se iria existir uma segunda; mesmo tratando-se apenas de um projeto-piloto, quisemos garantir que ficaria algo que pudesse ser efetivamente aproveitado.


De forma simples, o concurso consiste na identificação de um possível caso de desinformação que, no final, pode até revelar-se verdadeiro, seguido da aplicação da nossa metodologia de verificação de factos, adaptada às possibilidades e aos recursos ao alcance dos alunos. Em primeiro lugar, os alunos identificam um caso que consideram ser de desinformação, o tema é completamente livre. De seguida, realizam um trabalho de verificação de factos, naturalmente à escala das suas competências, com o objetivo de refutar a informação identificada, normalmente encontrada nas redes sociais. O formato do trabalho também é totalmente livre. Recebemos trabalhos em vídeo, texto e ilustração e, na primeira edição, tivemos inclusivamente um projeto em stop motion.
A seleção dos trabalho ocorre em duas fases: a primeira consiste numa triagem realizada por jornalistas do Polígrafo, onde todas as candidaturas recebidas são analisadas e são selecionadas apenas as que reúnem condições de viabilidade; após esta triagem inicial, os trabalhos selecionados seguem para avaliação do júri oficial, definido desde logo no regulamento do concurso, composto por um representante de cada organização envolvida no projeto: um elemento do Polígrafo, um da Fundação Calouste Gulbenkian, um da Comissão Europeia, um do Gabinete do Parlamento Europeu, um da Agência Erasmus+. A decisão final é tomada numa reunião do júri realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, com todos os seus membros representados. Com base numa grelha de avaliação previamente definida, contendo critérios específicos, é calculada a média das pontuações atribuídas e, por unanimidade, é redigida a ata com a decisão final do júri.
No ano passado, a grande maioria dos trabalhos submetidos incidiu sobre a temática da imigração, o que revela que os alunos reconhecem tratar-se de uma área particularmente sensível e marcada por um elevado grau de desinformação no nosso país.
Da experiência com a implementação do “Pinóquio na Escola”, qual a V/ perceção sobre os desafios encontrados?
Os desafios da primeira edição foram sobretudo de natureza prática. Um deles esteve relacionado com o calendário escolar. Como iniciámos o projeto relativamente tarde, os professores já se encontravam numa fase particularmente exigente, marcada pelo cumprimento de prazos associados à preparação dos exames e ao acompanhamento dos alunos, o que dificultou a implementação da iniciativa. Por esse motivo, tivemos maiores dificuldades em agendar sessões em algumas escolas. Ainda assim, optámos por avançar, realizámos cerca de 17 sessões presenciais e dividimos o território de acordo com as NUTS II, uma vez que se tratava de um projeto-piloto, o que nos permitiu retirar as conclusões necessárias.
O que é que difere da primeira para a segunda edição? As diferenças são, de facto, significativas. Na segunda edição, optámos por dividir o país em NUTS III, o que significa que duplicámos o número de sessões presenciais previstas. Demos, assim, início a este calendário de roadshow e o desafio passou a ser a limitação dos meios disponíveis para responder a todos os pedidos de sessões presenciais. Infelizmente, já tivemos de recusar algumas solicitações, sobretudo quando surgem pedidos repetidos na mesma região, embora estejamos a tentar dar resposta através da realização de sessões online mais curtas, de modo a conseguir corresponder positivamente ao maior número possível de escolas.
Outro desafio identificado na primeira edição, para além do agendamento das sessões, prendeu-se com o envolvimento efetivo dos professores na dinamização dos trabalhos do concurso junto dos alunos. Para ultrapassar esta dificuldade, criámos, na segunda edição, uma rede de professores-embaixadores. Qualquer docente, em qualquer parte do país, pode candidatar-se a este papel, sem que isso implique qualquer obrigação formal. Na prática, esta rede permite que os professores recebam periodicamente todas as informações relevantes sobre o concurso, o respetivo regulamento e sobre projeto em geral, facilitando a articulação com as suas turmas e incentivando a participação dos alunos no concurso.

Há ainda um aspeto relacionado com o concurso que, embora não faça parte diretamente da pergunta, importa esclarecer. Na primeira edição, o concurso destinava-se exclusivamente a alunos do ensino secundário que desenvolveram os seus trabalhos e houve um resultado final único. Na segunda edição, o concurso passou a estar também aberto ao 3.º ciclo do ensino básico e o modelo é diferente: o concurso abriu mais cedo, ainda antes das férias de Natal, e passou a estar organizado em duas fases. A primeira fase funciona como uma declaração de intenções, na qual os alunos indicam o tema que pretendem trabalhar, a metodologia que planeiam utilizar e o formato do projeto. A partir daí, é feita uma pré-seleção dos trabalhos mais viáveis, permitindo uma curadoria ao longo do processo até ao resultado final.
Este acompanhamento tem dois objetivos principais: por um lado, melhorar a qualidade média dos projetos apresentados, na primeira edição tivemos trabalhos excelentes, mas também outros mais frágeis, o que é natural; por outro, proporcionar um momento formativo extracurricular para os alunos que desejam participar, acrescentando valor pedagógico ao próprio processo de desenvolvimento dos trabalhos.
O concurso nacional passa agora a contemplar duas vertentes, ensino secundário e 3.º ciclo, sendo que o formato é igual para todos os participantes, mas os prémios são diferenciados, uma vez que seria manifestamente injusto comparar trabalhos do ensino secundário com os do 3.º ciclo.
Qual tem sido o feedback obtido por parte dos alunos, dos professores e das escolas onde têm implementado a iniciativa?
O feedback tem sido muito positivo. Digo isto não apenas porque os professores nos abordam logo após as sessões e nos pedem para realizar mais iniciativas, o que é, por si só, um bom sinal, mas também pelo retorno que recebemos dos alunos.
Recordo um exemplo particularmente ilustrativo que ocorreu em Faro e que me deixou bastante satisfeito. Por vezes, durante as sessões, não temos a certeza de que a mensagem está efetivamente a ser assimilada, até porque há audiências mais recetivas do que outras. No entanto, nessa sessão em Faro estiveram presentes alguns jornalistas, nomeadamente da Rádio Renascença, que conversaram com os alunos após a iniciativa. Ver os alunos a dialogar com colegas meus, que eles não conheciam e que não tinham qualquer ligação direta à sessão, e a reproduzir, de forma crítica, os conteúdos e as ideias discutidas foi extremamente gratificante. Para nós, isso é um sinal claro de que algo permanece com eles e que esse conhecimento é depois levado para as suas turmas.
O nosso objetivo é precisamente que os alunos se tornem embaixadores destas temáticas nos seus próprios círculos de influência, partilhando o que aprenderam com colegas e professores e ajudando a disseminar este tipo de conhecimento.
O alargamento da iniciativa ao 3.º ciclo é também uma resposta ao feedback recebido. Na primeira edição, recebemos muitas manifestações de interesse por parte de professores do 3.º ciclo de ensino, apesar de a iniciativa estar limitada ao ensino secundário. Em conjunto com os nossos parceiros, considerámos que esta abertura fazia sentido, dado que, no 3.º ciclo, os alunos já têm telemóvel, consomem grandes quantidades de informação, e desinformação nas redes sociais, e é pertinente trabalhar estas competências junto desta faixa etária. Assim, as sessões presenciais da segunda edição envolvem turmas do 3.º ciclo, e a nossa expectativa é praticamente triplicar o número de sessões realizadas, uma vez que iremos além do número inicialmente previsto.
Nesta segunda edição, o processo de recolha de feedback evoluiu. Enquanto na primeira edição o retorno era sobretudo orgânico e informal, atualmente estamos a aplicar questionários para avaliar de forma mais estruturada se as sessões foram úteis para os alunos. Estes instrumentos permitem uma análise mais rigorosa do impacto da iniciativa após a realização das sessões. De um modo geral, os resultados têm sido bastante positivos.
Quais os próximos passos desta iniciativa e de que forma é que as escolas e outras entidades de ensino podem usufruir dos resultados do mesmo?
A partir de janeiro e até ao final do ano letivo, o calendário começará a intensificar-se significativamente. Estão já agendadas sessões em Lagos, Alenquer, Serpa, Vinhais e Entroncamento. Em fevereiro, teremos sessões no Funchal, Mortágua, Pombal, Castelo Branco e Amarante. Em março, passaremos por Évora, Albergaria-a-Velha, Braga, Caldas da Rainha e Loures. Estas são apenas algumas das sessões já confirmadas, estando previstas outras.
No que respeita ao concurso, estamos a ultrapassar os objetivos inicialmente definidos, o que nos deixa muito satisfeitos. Encontramo-nos atualmente na primeira fase, dedicada à receção das manifestações de interesse para a apresentação de trabalhos. Em algumas escolas, tal como aconteceu na primeira edição, para além das sessões presenciais e do reforço da comunicação do concurso, estamos a desenvolver uma toolkit com o objetivo de garantir um impacto que se prolongue para além da duração do projeto.
Estamos a trabalhar sem sabermos se vai existir uma terceira edição, portanto, estamos a trabalhar com o grande objetivo de tentar criar o máximo impacto possível e, sobretudo, disponibilizar materiais que possam ser partilhados. Se o Pinóquio na Escola terminar, ficará sempre alguma coisa para as escolas poderem aproveitar, esse é o nosso objetivo.
Neste momento, temos três meios distintos de contato. As escolas que tiveram conhecimento do projeto na primeira edição e que tinham muito interesse em participar foram contactadas; alguns contatos diretos que temos com regiões mais periféricas são facilitados pela Rede de Escolas Embaixadoras do Parlamento Europeu, que são nossos parceiros; e, outras escolas que tenham interesse em participar podem contactar através de um formulário de contato no website que pode ser preenchido por professores ou alunos a solicitarem uma sessão.
Para mais informações sobre o projeto, consulte