“No que diz respeito à educação, não temos dúvidas de que é a chave para combater as diversas formas de discriminação, seja o idadismo, o racismo, o sexismo ou o capacitismo. “

Como surgiu a ideia de criar o programa educativo “Amigos de todas as idades – Vencendo o idadismo”?
O programa “Amigos de todas as idades” surge alinhado com a estratégia da Organização Mundial da Saúde (OMS) no combate ao idadismo. Existe uma campanha global denominada “Um Mundo para Todas as Idades”, e procurámos adaptá-la à realidade portuguesa em paralelo com os princípios da Década do Envelhecimento Saudável 2020-2030. Apesar da iniciativa da OMS ser relevante, tem passado algo despercebida em Portugal. No entanto, o seu primeiro pilar, centra-se precisamente em mudar a forma como pensamos, sentimos e agimos em relação ao envelhecimento. Ou seja, trata-se de combater estereótipos e preconceitos associados à idade. Com base nestas linhas orientadoras, a OMS define as metodologias mais eficazes para combater aquela que é considerada a terceira forma de preconceito mais prevalente no mundo, a seguir ao racismo e ao sexismo. Neste âmbito, trabalhamos três grandes dimensões, naturalmente ajustadas aos meios de que dispomos. A primeira diz respeito às políticas públicas e à legislação – procuramos influenciar este domínio através de ações de informação e sensibilização, participação em colóquios e também por via da presença nas redes sociais. A segunda dimensão prende-se com as atividades educativas. A terceira envolve atividades intergeracionais. Importa, contudo, sublinhar que as atividades intergeracionais devem ser significativas para todas as partes envolvidas e não meramente pontuais ou instrumentais. Embora já existam iniciativas deste tipo, como visitas ocasionais de avós às creches, o objetivo é ir mais além, promovendo políticas públicas que incentivem programas consistentes e estruturados, capazes de beneficiar efetivamente diferentes gerações.
No que diz respeito à educação, não temos dúvidas de que é a chave para combater as diversas formas de discriminação, seja o idadismo, o racismo, o sexismo ou o capacitismo. Quanto mais conseguirmos levar estes temas às escolas, aos alunos e à comunidade educativa, incluindo naturalmente as famílias, mais próximos estaremos de reduzir estas formas de preconceito. As escolas assumem, por isso, um papel fundamental. Desde logo, porque o idadismo, ao contrário de outras formas de discriminação, está frequentemente normalizado e é muitas vezes invisível. A maioria das pessoas não o reconhece, nem enquanto vítima, nem enquanto agente. É essencial tornar este problema visível para que possa ser enfrentado.
Além disso, a escola constitui uma comunidade alargada, que inclui alunos, professores, auxiliares e famílias, o que potencia o impacto das intervenções. Não se trata de “inventar a roda”, mas de seguir exemplos bem-sucedidos noutras áreas, como a prevenção rodoviária ou a reciclagem, em que as crianças desempenham um papel ativo na transmissão de comportamentos junto das suas famílias. De facto, quando conseguimos chegar aos alunos, sobretudo nas idades entre os 6 e os 10 anos, não estamos apenas a influenciá-los a eles, mas também o seu contexto familiar. A evidência científica demonstra que muitos estereótipos e preconceitos começam a formar-se muito cedo, até mesmo antes da idade escolar, no seio da família e das interações sociais. Assim, quanto mais cedo conseguirmos intervir, melhor. Daí a aposta num programa educativo dirigido ao 1º ciclo do ensino básico, com crianças entre os 6 e os 10 anos, como ponto de partida para promover uma mudança de mentalidades desde as idades mais precoces.
De que forma o desenho deste programa responde à promoção da inclusão e, especificamente, ao combate ao idadismo?
Aquilo que procurámos fazer foi, antes de mais, apresentar o conceito. Naturalmente, é necessário desconstruí-lo, tendo em conta que estamos a falar de crianças entre os 6 e os 10 anos, e sabemos que há diferenças significativas entre uma criança de 6 anos e outra de 10. A ideia foi levar a palavra “idadismo” às escolas. Isto é particularmente relevante, porque o termo é ainda recente, entrou há cerca de três anos no dicionário da língua portuguesa. Esse facto diz muito, se a palavra não existia, também o fenómeno permanecia, de certa forma, invisível. Um aspeto importante foi precisamente a definição do termo. Tivemos a oportunidade de contribuir para que a definição de “idadismo” ficasse como “estereótipo ou preconceito em função da idade”, sem restringir apenas às pessoas mais velhas. Embora o nosso trabalho incida muito sobre o envelhecimento, faz-nos sentido transmitir que o idadismo afeta todas as pessoas, em todas as idades.

É exatamente essa mensagem que procuramos passar às crianças, todos merecem respeito, independentemente da idade. Tal como uma criança deve respeitar os outros, os pais, os avós, os professores, também ela tem direito a ser respeitada. As crianças têm direitos próprios, que devem ser reconhecidos e valorizados. Percebemos, no entanto, que nem sempre esta ideia está interiorizada. Muitas vezes, surgem situações em que uma criança mais nova é desvalorizada por outra mais velha, por exemplo no recreio, com comentários como “és pequeno, o que dizes não conta”. Estes momentos tornam-se oportunidades importantes para trabalhar o tema e ajudá-los a compreender que ninguém é “mais” ou “menos” por causa da idade.
O programa assenta, assim, em atividades simples, acessíveis e participativas. Começamos por explorar a palavra “idadismo”, muitas vezes através de jogos, como o jogo da forca, para despertar a curiosidade. Depois, recorremos a dinâmicas como fechar os olhos e associar ideias a palavras como “velho” ou “velha”, registando as respostas e promovendo a reflexão. No final, essas ideias podem dar origem a um painel coletivo que fica na sala de aula. Procuramos também deixar uma “marca” da atividade, como um marcador de livros que as próprias crianças decoram, reforçando o compromisso de partilhar a mensagem em casa. A lógica é simples: através de atividades práticas e significativas, ajudar as crianças a compreender o conceito, a reconhecer situações de discriminação e a agir de forma mais consciente. Queremos que percebam que podem ser vítimas, mas também agentes de discriminação, e que têm um papel ativo na mudança.
É interessante observar que, apesar de existirem alguns estereótipos já enraizados, muitas crianças revelam atitudes positivas, especialmente em relação às pessoas mais velhas. Falam dos avós com carinho e respeito, ainda que por vezes com uma visão algo paternalista, que reflete a cultura e o contexto em que crescem. Ao mesmo tempo, identificamos ideias pré-concebidas, como a noção de que as pessoas mais velhas não aprendem ou têm mais dificuldades, que importa desconstruir. Ainda assim, de forma geral, a imagem que as crianças têm das pessoas mais velhas tende a ser bastante positiva.
Outro aspeto que nos surpreendeu foi perceber que outras formas de discriminação, como o racismo e o sexismo, continuam bastante presentes. Por exemplo, numa sessão, um aluno questionou o facto de eu usar uma camisola de cor associada ao feminino. Esse momento permitiu trabalhar a ideia de que não existem cores “de meninos” ou “de meninas” e abrir a discussão para outras formas de discriminação.
É igualmente interessante notar que, em muitos casos, os próprios professores não conheciam o termo “idadismo”. Isso acaba por gerar um efeito positivo, pois leva também os adultos a refletir e a preparar-se melhor para abordar o tema com os alunos. No fundo, trata-se de um trabalho simples, mas com potencial transformador, o de tornar visível aquilo que muitas vezes passa despercebido e começar, desde cedo, a construir uma cultura de respeito e inclusão.
Qual tem sido o feedback obtido por parte dos alunos, dos professores e das escolas onde têm implementado o programa?
O feedback tem sido muito positivo. Prova disso é o facto de várias escolas e agrupamentos nos terem vindo a contactar para desenvolver atividades em turmas onde ainda não tínhamos estado, bem como noutros níveis de ensino.
Numa fase inicial, começámos por implementar o programa no âmbito das Atividades de Enriquecimento Curricular (AEC), ou seja, num contexto extraescolar. Nesse espaço, onde coexistem atividades como inglês, música, expressões, teatro, robótica ou xadrez, sentimos que havia maior abertura e disponibilidade por parte dos alunos, uma vez que não existe a mesma pressão associada ao cumprimento dos conteúdos programáticos. Foi, por isso, uma porta de entrada facilitadora. Iniciámos o trabalho com um conjunto limitado de grupos, mas rapidamente começámos a ser contactados por professores que pretendiam que levássemos o programa também às suas turmas. Começámos num agrupamento do concelho de Viseu e, no ano seguinte, conseguimos chegar a todos os agrupamentos do concelho, num total de cinco. Este movimento, das escolas a procurarem-nos, é, por si só, um indicador muito positivo. Deixa de ser apenas uma iniciativa nossa para passar a ser uma resposta a uma necessidade sentida pelas próprias escolas.


Curiosamente, temos também recebido pedidos de escolas do ensino secundário e de escolas profissionais. Embora o programa ainda não esteja adaptado a esses níveis de ensino, o interesse demonstra que há uma crescente preocupação com o tema. Nesses casos, realizamos ações de informação, sensibilização e capacitação, mantendo o objetivo de colocar o idadismo na agenda e promover a reflexão. A adaptação do programa a outros níveis de ensino é, aliás, um dos nossos objetivos futuros, precisamente porque essa procura tem vindo a aumentar. Isso deixa-nos satisfeitos e reforça a ideia de que o trabalho que estamos a desenvolver faz sentido.
Ainda assim, é importante reconhecer que este é um percurso gradual. Iniciámos este trabalho no final de 2020 e sabemos que a mudança de mentalidades leva tempo. O idadismo continua muito presente na sociedade, muitas vezes de forma normalizada. Exemplo disso são propostas ou ideias que surgem no espaço público e que revelam preconceitos enraizados, como a associação automática entre idade e incapacidade. Apesar disso, o balanço é claramente positivo. Naturalmente, gostaríamos de ter mais recursos para aprofundar o trabalho, chegar a mais escolas e envolver mais alunos. No entanto, procuramos avançar de forma sustentada, ao ritmo possível, valorizando o impacto que conseguimos gerar com os meios disponíveis.
Da experiência com a implementação do programa educativo “Amigos de todas as idades – Vencendo o idadismo”, qual a V/ perceção sobre os desafios encontrados?
O principal desafio foi, sobretudo numa fase inicial, encontrar disponibilidade por parte das escolas, dos professores e dos alunos para criar tempo e espaço que permitissem desenvolver este trabalho. A segunda dificuldade prendeu-se com o facto de o tema ser praticamente desconhecido da comunidade educativa. Não sendo identificado, não era percecionado como um problema. No entanto, à medida que fomos encontrando formas de entrada nas escolas, essa barreira foi sendo progressivamente ultrapassada. Hoje, conseguimos aceder às escolas com muito mais facilidade, somos bem recebidos e sentimos um acolhimento muito positivo.
Ainda assim, persiste uma dificuldade importante, o tema continua a não estar verdadeiramente presente na sociedade. Muitas vezes, corremos o risco de viver numa “bolha”, reforçada pelas redes sociais e pelos seus algoritmos, que nos dá a sensação de que toda a gente fala de envelhecimento, longevidade e idadismo. Mas, na realidade, isso não corresponde ao que acontece fora do nosso contexto. Apesar de alguma atenção por parte da comunicação social, o destaque continua a ser insuficiente face à relevância do tema.
O principal obstáculo é, portanto, a ausência de uma política pública estruturada nesta área. Não se trata apenas de uma política específica de combate ao idadismo, mas de uma estratégia mais ampla relacionada com a longevidade. Há sinais encorajadores de que poderá estar a ser desenvolvida uma estratégia nacional nesse sentido, o que representa uma esperança. Contudo, até agora, nunca existiu uma estratégia que colocasse o combate ao idadismo como elemento central. E essa é uma barreira significativa, porque, enquanto não mudarmos a forma como pensamos, sentimos e agimos em relação ao envelhecimento, será difícil promover uma mudança efetiva.
Vivemos numa sociedade muito centrada na juventude, com uma forte valorização da aparência e, muitas vezes, marcada por atitudes gerontofóbicas. Existe um receio generalizado de envelhecer, o que acaba por afastar as pessoas desta reflexão. Importa esclarecer que não se trata de impor modelos ou escolhas individuais, cada pessoa deve ser livre de viver o seu envelhecimento como entender. O problema surge quando há discriminação, seja qual for a opção. Assim, enquanto não existir uma política pública que promova uma mudança de mentalidades e que valorize a longevidade com qualidade de vida, o impacto das iniciativas no terreno será sempre limitado. O trabalho que desenvolvemos nas escolas e na comunidade é importante e necessário, mas não tem a força que teria se estivesse enquadrado numa estratégia nacional consistente.
Já existiram iniciativas, como estratégias para o envelhecimento ativo e saudável, que consideramos positivas. No entanto, verificou-se que o tema do idadismo surgia de forma residual, quase como uma nota de rodapé, quando deveria assumir um papel central, sobretudo tendo em conta que, a nível internacional, é considerado um pilar fundamental. Seria fundamental que estas questões fossem incorporadas, por exemplo, na educação para a cidadania, como um tema transversal, que envolve alunos, professores, auxiliares e famílias.


A capacitação dos profissionais da educação é igualmente essencial, para que possam integrar estas questões no seu quotidiano e contribuir para o desenvolvimento global das crianças. Acreditamos que, com uma estratégia bem definida, implementada desde o ensino pré-escolar, à semelhança do que já acontece com outras temáticas como o racismo ou o sexismo, seria possível alcançar um impacto muito mais significativo.
Em suma, o maior desafio não está apenas na implementação do programa, mas no contexto mais amplo em que ele se insere, na necessidade de tornar o idadismo uma prioridade na agenda pública e educativa.
Quais os próximos passos do programa e de que forma é que as escolas e outras entidades de ensino podem usufruir dos resultados do mesmo?
Naturalmente gostaríamos de ampliar o alcance do programa. Neste momento, está muito direcionado para os alunos do 1.º ciclo do ensino básico, mas o nosso objetivo é escalá-lo a outros níveis de ensino, incluindo o ensino secundário e o ensino superior.
Pretendemos chegar ao maior número possível de alunos, o que constitui também um desafio, tendo em conta os recursos disponíveis. Nesse sentido, uma das metas passa por criar condições para dispor de uma equipa de profissionais na associação que possa desenvolver este trabalho de forma mais alargada e responder às solicitações das escolas e de outras entidades educativas, independentemente do nível de ensino. Este alargamento é, portanto, um dos principais objetivos, chegar a mais contextos educativos e a públicos mais diversificados.
Existem já alguns sinais encorajadores. Por exemplo, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR Centro) lançou recentemente o concurso “Idadismo Zero”, dirigido a estudantes do ensino superior. Esta iniciativa, inovadora, desafiou os alunos, individualmente ou em equipa, sempre com o acompanhamento de um professor, a desenvolver projetos de combate ao idadismo. O facto de ter havido cerca de 77 candidaturas na primeira edição é muito significativo e demonstra que existe interesse e potencial para aprofundar este trabalho em diferentes níveis de ensino.
Assim, o nosso objetivo passa por continuar a intervir tanto na educação formal como na educação não formal, promovendo a disseminação do programa e dos seus princípios, e contribuindo para uma maior sensibilização para a temática do idadismo, junto de públicos cada vez mais alargados.
Para mais informações sobre o Programa Educativo de Combate ao Idadismo consulte aqui.