“A história evidencia o papel que uma criança, quando devidamente informada, pode desempenhar no seio de uma família que continua funcional após um diagnóstico desta natureza.”

Como surgiu a ideia de criar o projeto Córtex School Bag?
Em 2018, um dos projetos de investigação em que estávamos envolvidos foi apresentado num programa de empreendedorismo, tendo sido selecionado e distinguido com um prémio.
Este prémio implicou a criação de uma spin-off do Politécnico, dando origem à AGILidades, que ainda hoje se mantém ativa. O Córtex School Bag surge no âmbito dos projetos desenvolvidos nesta spin-off e do interesse da nossa equipa em aprofundar o trabalho na área da literatura científica sobre a demência. A partir daí, começámos a desenvolver vários projetos mais direcionados para as pessoas com demência. A certa altura, a análise da literatura nesta área começou a evidenciar a necessidade de abordarmos não só a demência, mas também outras patologias associadas ao envelhecimento, e de o fazer cada vez mais cedo. Começámos então a perceber que os programas de prevenção e de educação deveriam ter início numa fase precoce do ciclo de vida e foi nesse contexto que direcionámos a nossa atenção para a infância, sobretudo para o primeiro ciclo do ensino básico.
No âmbito desta preocupação e do nosso interesse crescente pelo tema, surgiu um projeto num país que não esperávamos, a Escócia, onde esta temática já estava a ser trabalhada ao nível do ensino primário. No contexto escocês, foi desenvolvido um kit específico que acabou por servir de inspiração para o nosso trabalho. Apesar de não existir uma ligação direta entre este kit e o nosso, foi a partir desta referência, que integra o ensino obrigatório na Escócia, que começámos a pensar em desenvolver algo diferente em Portugal. A partir daí, seguimos o nosso próprio caminho.
Como a nossa área de eleição reside nas estratégias gamificadas, percebemos desde logo que o nosso kit teria de integrar este tipo de abordagem, até porque sabemos que as crianças respondem muito bem a estas metodologias. Foi assim que começámos a desenvolver o nosso próprio modelo e a desenhar o kit educativo que viria a dar origem ao Córtex School Bag.
De que forma o desenho deste projeto reduz o estigma e o preconceito associado ao envelhecimento e à demência?
O projeto assenta, no essencial, em três componentes distintas. Duas delas são dirigidas às crianças e já se encontram implementadas de forma alargada, tendo sido objeto de avaliação quanto aos seus resultados e impacto. A terceira componente é orientada para a formação de professores e encontra-se ainda em fase de desenvolvimento, contando com o contributo de docentes e investigadores da Escola de Educação do Instituto Politécnico de Leiria.
As duas componentes dirigidas às crianças incluem um jogo e uma narrativa musicada, um livro com componente musical. A narrativa conta a história desde o momento do diagnóstico de demência de uma avó e acompanha a forma como o neto adota uma postura proativa e informada para a apoiar. A história evidencia o papel que uma criança, quando devidamente informada, pode desempenhar no seio de uma família que continua funcional após um diagnóstico desta natureza. Ao longo do livro, o neto vai ajudando a avó através de estratégias simples e acessíveis. A determinada altura, o neto começa a desenhar planos para apoiar a avó, transmitindo às crianças várias orientações sobre como podem ser proativas e manter uma relação de proximidade e mutualidade, ou seja, uma relação positiva, após um diagnóstico de demência. A narrativa termina, de forma intencional, no início de um processo de institucionalização da avó. Esta opção é deliberada, pois prevê-se o desenvolvimento de um segundo volume que aborde esta fase e explore como as crianças podem continuar a ter um papel ativo neste contexto. O livro inclui também uma música, co-construída e interpretada por um grupo de crianças, em parceria com uma escola que tem um coro musical. Este processo reflete a participação ativa de instituições de ensino que acolheram o projeto e contribuíram para as primeiras fases de recolha de dados.

Por sua vez, o jogo apresenta uma vertente complementar. Para além de ajudar as crianças a compreender e interpretar a narrativa, integra também conteúdos de neurociência, explicando de forma acessível o que é a demência e o funcionamento do sistema nervoso central. Assim, responde à curiosidade natural das crianças em perceber “o que está por trás” destas condições. Do ponto de vista visual, o jogo é particularmente apelativo, cada tabuleiro representa um cérebro e, à medida que as crianças avançam no jogo e acumulam pontos, vão “construindo” sinapses, simbolizando a formação de um cérebro mais rico e ativo.
Por fim, a componente dirigida aos professores consiste num guia que pretende apoiá-los na abordagem destes temas em sala de aula, promovendo maior confiança e autonomia. Este elemento é essencial para garantir a sustentabilidade do projeto, reduzindo a dependência de equipas externas como a nossa. Atualmente, este guia encontra-se ainda em desenvolvimento, com o objetivo de vir a integrar um programa em que os professores tenham um papel ativo na sua implementação.
De que forma acredita que projetos como este podem contribuir para uma sociedade mais inclusiva?
Na verdade, os primeiros resultados que temos vindo a medir indicam que as crianças podem alterar de forma significativa as suas atitudes face ao envelhecimento. Isto é particularmente relevante se considerarmos que, devido ao aumento da esperança média de vida, as famílias são hoje maioritariamente intergeracionais. As gerações cruzam-se muito mais do que no passado. Atualmente, é comum existirem agregados familiares com três ou mais gerações, o que reflete aquilo que a literatura designa como “famílias sanduíche”, ou seja, estruturas com várias camadas geracionais. No entanto, existe frequentemente um grande intervalo entre gerações, por vezes de 40 ou 50 anos, durante o qual ocorreram profundas mudanças sociais. Quando a este fator se associa um processo de doença, como a demência, os desafios para as famílias tornam-se ainda mais complexos.
Neste contexto, acreditamos que ferramentas como esta, podem contribuir para uma maior compreensão entre gerações e para o desenvolvimento da empatia. Os resultados que temos vindo a recolher apontam precisamente nesse sentido. Por exemplo, num dos instrumentos de avaliação aplicados incluímos uma questão sobre a disponibilidade das crianças para se voluntariarem no apoio a pessoas idosas com dificuldades semelhantes às da avó Tita, personagem da história. Verificámos uma mudança significativa neste tipo de atitudes.
Esta evolução parece estar relacionada com o facto de as crianças se sentirem mais seguras e capacitadas para lidar com os desafios do envelhecimento. Ao perceberem que muitas situações não são tão complexas como aparentam e, que estratégias simples podem fazer a diferença, tornam-se mais confiantes na sua capacidade de intervenção.
Para além disso, observamos melhorias ao nível da empatia, bem como uma redução de medos, receios e atitudes idadistas. Verifica-se também uma diminuição de uma visão excessivamente paternalista, que tende a atribuir exclusivamente aos profissionais de saúde a responsabilidade pela resolução destes problemas, desvalorizando o papel das famílias.
Em suma, já conseguimos demonstrar que este tipo de intervenção promove mudanças ao nível das atitudes, com impacto direto na construção de uma sociedade mais inclusiva.
Por outro lado, temos também a intenção de alargar esta narrativa e este kit a dinâmicas mais direcionadas para as famílias. Acreditamos que muitas das dúvidas das crianças são partilhadas pelos próprios familiares. Uma das perspetivas futuras passa pela realização de encontros e tertúlias que envolvam crianças e famílias, promovendo a reflexão conjunta sobre estas temáticas e contribuindo para uma comunidade escolar mais alargada e participativa.
Qual tem sido o feedback obtido por parte dos alunos, dos professores, das escolas e outras instituições onde têm implementado o projeto?
O feedback tem sido extremamente positivo, mesmo em contextos onde, inicialmente, existiam algumas reservas quanto à implementação do projeto, quer pela natureza do tema, quer por alguma insegurança associada à sua abordagem. Ainda assim, mesmo nessas escolas, a resposta tem sido muito encorajadora.
O feedback mais imediato é, talvez, o dos alunos. Estes acabam por contactar com um conjunto de questões que lhes são, na maioria das vezes, totalmente novas, o que se reflete claramente na evolução entre os instrumentos de avaliação aplicados no início e no final do acompanhamento do projeto. Quando lhes perguntamos se gostariam de voltar a participar ou dar continuidade à experiência, a maioria responde de forma bastante entusiástica.
Embora a narrativa e o livro musicado sejam muito bem recebidos, diria que é no jogo que as crianças demonstram maior entusiasmo. Este destaca-se claramente como o elemento mais envolvente para elas.
Relativamente aos professores, observa-se também uma crescente abertura ao tema ao longo das sessões. No final, regra geral, cada escola fica com um exemplar do kit, mesmo quando a implementação não implica a aquisição formal dos materiais. Posteriormente, procuramos perceber se o material continua a ser utilizado.

De uma forma geral, verificamos que o livro tende a ser mais facilmente retomado e integrado nas práticas educativas. O jogo, por sua vez, apresenta maior complexidade, sobretudo por incluir conteúdos ligados à neurociência, o que exige uma exploração mais aprofundada. Assim, o livro revela-se uma ferramenta mais imediata e acessível para dar continuidade ao trabalho em sala de aula.
A componente musical também tem tido um impacto muito interessante, a música “fica no ouvido”. Posso partilhar um exemplo, uma educadora de infância sugeriu que apresentássemos o livro a crianças um pouco mais novas, apesar de o material estar pensado para o ensino básico. A receção foi extremamente positiva, e a música rapidamente se tornou familiar para as crianças, que a cantavam frequentemente, dentro e fora da sala de aula.
Isto leva-nos a acreditar que o livro e a componente musical podem, inclusivamente, ser trabalhados em idades mais precoces do que inicialmente previsto.
Globalmente, o projeto tem sido muito bem acolhido, ainda assim, o reforço da componente de formação de professores é fundamental para garantir a sua sustentabilidade a longo prazo.
Da experiência com a implementação do projeto Córtex School Bag, qual a V/ perceção sobre os desafios encontrados?
De facto, têm surgido vários desafios. Alguns deles são transversais a outros projetos que não fazem parte do currículo obrigatório. Um dos principais prende-se com alguma insegurança inicial por parte das escolas e dos professores em acolher um projeto completamente novo, com uma temática que nem sempre faz parte da sua preparação de base.
Embora exista, de forma geral, uma sensibilidade crescente para estas questões, muitos profissionais sentem que não estão totalmente preparados para as abordar em contexto de sala de aula. Essa insegurança manifesta-se, por exemplo, em dúvidas como – “Se quiser dar continuidade ao projeto, como faço?” ou “Como devo responder a perguntas dos alunos sobre estas temáticas?”.
Outro desafio significativo é a falta de tempo dos profissionais. Algumas escolas referem mesmo dificuldade em integrar o projeto, ou até em receber a equipa, devido à exigência de cumprimento do currículo e das restantes responsabilidades letivas.
Perante este cenário, sentimos que este projeto beneficiaria de um enquadramento mais estruturado, idealmente ao nível de uma política pública; não necessariamente como parte obrigatória do currículo, mas pelo menos como uma iniciativa reconhecida e valorizada pelos organismos competentes.
Um possível caminho poderá passar por um reconhecimento inicial a nível regional, por exemplo através da integração em programas municipais. Esse passo poderá, mais tarde, facilitar a evolução para uma política mais abrangente e consolidada.
Quais os próximos passos do projeto e de que forma é que as escolas e outras instituições podem usufruir dos resultados do mesmo?
Neste momento, estamos a trabalhar para encerrar o ano com a produção de alguns tutoriais, com o objetivo de formar e capacitar os professores. Desta forma, será possível promover um maior acolhimento do projeto e garantir a sua sustentabilidade, permitindo que os docentes utilizem este kit várias vezes ao longo do ano letivo e abordem as temáticas de forma estruturada e progressiva. Esta é, claramente, uma meta importante, para a qual felizmente conseguimos agora financiamento. Importa ainda referir que todo este material será co-construído em parceria com os professores. Para isso, contaremos com um grupo de docentes a colaborar connosco, assegurando que as soluções desenvolvidas respondem efetivamente às necessidades e desafios do seu dia a dia.
Outra meta é chegar a um maior número de escolas piloto. Gostaríamos muito, e estamos a trabalhar nesse sentido, que este projeto ajudasse a construir uma nova lógica de escolas amigas da pessoa idosa, ou seja, escolas preparadas para atividades intergeracionais, onde as crianças se sintam capazes de interagir de forma positiva, empática e construtiva com pessoas mais frágeis.
Queremos, portanto, construir esta marca de “escolas amigas da pessoa idosa”, através da introdução destas políticas e destes materiais, que possam incentivar uma inclusão mais alargada. Falamos muito de escolas inclusivas, mas, na prática, esta inclusão tende muitas vezes a centrar-se em faixas etárias semelhantes. Acredito que esta inclusão tem de ir mais longe e abranger outras gerações, incluindo também as pessoas idosas, que são frequentemente mais vulneráveis.
Para atingirmos esta ambição ao nível das políticas públicas, precisamos de um maior apoio das entidades regionais. E por apoio, não nos referimos apenas a apoio financeiro, que, naturalmente, é sempre bem-vindo e essencial para a sustentabilidade destes projetos, mas sobretudo a uma visão institucional diferente para as escolas e comunidades educativas.
Este aspeto é muito importante, tal como este momento de partilha, porque só assim será possível alcançar uma visão mais abrangente e estruturada.
Para mais informações sobre o Projeto Córtex School Bag consulte aqui.