fbpx
Select Page

INTERVIEW

Escolas amigas dos Direitos Humanos

"Capacitar a comunidade educativa para conhecer os seus direitos e para que assim também possa agir."

Luísa Marques é coordenadora de Educação para os Direitos Humanos na Amnistia Internacional – Portugal, um movimento global que mobiliza a humanidade para que os Direitos Humanos sejam uma realidade universal.

No Departamento de Juventude e Educação para os Direitos Humanos da Amnistia Internacional – Portugal, Luísa Marques é responsável pelo projeto ‘Escolas amigas dos Direitos Humanos’ que apresenta nesta entrevista.

Como nasce o projeto ‘Escolas Amigas dos Direitos Humanos, na Amnistia Internacional?

O projeto nasce a nível internacional em 2009, na sede da Amnistia Internacional, na sequência do Programa Mundial de Educação para os Direitos Humanos das Nações Unidas. Foi neste sentido que o projeto da Amnistia surgiu, para promover os Direitos Humanos dentro das escolas, a nível global e com uma abordagem holística.

Em Portugal, a Amnistia adota o projeto a partir do ano letivo 2013/2014, importando este formato internacional para adaptação ao contexto educativo nacional.

Qual a recetividade da comunidade educativa nacional a este projeto?

A Amnistia Internacional – Portugal trabalha com poucas escolas, devido aos poucos recursos que temos, mas também porque o projeto procura algumas mudanças estruturantes dentro das escolas e, nesse sentido, é um projeto que implica um acompanhamento regular da nossa parte para o qual temos de assegurar essa capacidade interna.

Começámos por trabalhar apenas com 6 escolas e há 2 anos incluímos mais 4 escolas. Neste momento, trabalhamos com 10 escolas. Nestas escolas, onde trabalhamos, a recetividade é muito boa porque as escolas candidatam-se ao projeto, manifestando o seu interesse, e a partir daí as direções obviamente que concordam com este projeto e querem levá-lo para dentro das escolas. É também uma forma de aliar o projeto à estratégia da Educação para a Cidadania, incluindo o projeto noutras questões que já ocorrem nas escolas ou que vão começar a ocorrer.

Acho que todas as escolas têm o desejo de que este tema seja trabalhado dentro das escolas, muitas vezes falta o tempo, falta a formação, faltam os recursos para o fazer mas, em geral, o projeto é muito bem acolhido por parte das direções, por parte dos professores e os alunos também são muito recetivos ao tipo de atividades que são feitas dentro deste tipo de projetos. Temos noção que recebemos dezenas de pedidos todos os anos de escolas para integrarem o projeto, mas temos de gerir a nossa capacidade para dar resposta e para integrar mais escolas interessadas no tema, como também na abordagem que este projeto propõe.

Geograficamente, onde se situam as escolas que integram o projeto em Portugal?

As escolas estão espalhadas pelo país. Temos três escolas mais a Norte, em Paços de Ferreira, Levante da Maia e São João da Madeira, no centro temos em Moimenta da Beira e Ferreira do Zêzere, perto de Lisboa temos em Vila Franca de Xira, Cacém e Barreiro, e no Alentejo temos em Estremoz. Procuramos alguma diversidade geográfica no sentido de partilhar algumas diferenças que possam existir dentro do próprio contexto da escola, da população da escola.

A zona geográfica traz riqueza e diversidade, mas também tentamos chegar a vários pontos do país para não estarmos centrados exclusivamente nas grandes cidades. É um desafio logístico gigante, mas foi uma escolha pensada.

Ainda que exista esta dispersão pelo território nacional, organizamos um encontro anual das escolas amigas, onde vêm 5 ou 6 jovens de cada escola.

Este encontro é um momento importantíssimo em termos de criação de ligações pessoais e afetivas. É um momento muito importante para o projeto, porque sentimos que, a partir do momento em que dinamizamos este encontro, esta relação entre as escolas mudou de forma muito substancial, e criamos relações pessoais dentro do projeto, o que foi uma peça muito importante para ligar estas escolas.

À medida que o projeto vai crescendo vamos perdendo uma ligação mais direta, mas ligar estas escolas, promover o trabalho em rede, continua a ser um fator fundamental, uma ligação mais pessoal e afetiva que as pessoas têm com este projeto.

No âmbito do Serviço Educativo da Amnistia Internacional em Portugal, como é que este projeto promove na prática os direitos contemplados na Declaração Universal dos Direitos Humanos?

Na prática, o projeto apresenta uma abordagem holística como já referi, o que quer dizer que não se trata apenas de fazer atividades pontuais sobre Direitos Humanos na escola, mas trata-se de trabalhar as questões dos Direitos Humanos do ponto de vista dos procedimentos e das práticas na própria escola.

Definimos quatro áreas de trabalho para nos ajudar a desenvolver concretamente esta questão. A área da governança, a forma como a escola é gerida, a área das relações entre a comunidade, a área do currículo em si e das atividades extracurriculares e, uma quarta área, que no fundo é uma súmula destas três, dedicada ao ambiente escolar.

As nossas atividades são delineadas em função destas quatro áreas mas procuram sobretudo que os Direitos Humanos não sejam apenas explorados ao nível da aula, ao nível de conteúdo dentro de alguma disciplina, mas procura-se que os Direitos Humanos sejam incorporados quer nas práticas, quer nos procedimentos da escola.

No início do projeto, tínhamos um plano anual que era sempre definido em conjunto com as escolas, é o que chamamos de plano comum de atividades, em que a equipa da Amnistia Internacional – Portugal sugere algumas atividades que são comuns a todas as escolas, no sentido de trabalharmos estas áreas. Tivemos, por exemplo, a análise dos regulamentos internos da escola, para os tornar mais amigos dos Direitos Humanos ou para incorporar algumas disposições que pudessem ser melhoradas. Neste momento, temos cerca de três ou quatro atividades anuais propostas por nós, no sentido de manter a relação e o trabalho em rede com as escolas, manter a relação com a Amnistia, mas este plano hoje é muito mais leve.

No início do projeto, sugerimos atividades para impulsionar a implementação do projeto nas escolas, mas mais tarde procuramos que as próprias escolas desenhem o seu plano de ação de acordo com aquilo que são as necessidades dentro da escola e fazemos algumas atividades de diagnóstico no início dos anos letivos, para apoiar as escolas a mapear as áreas que possam ter mais interesse. No ano passado, trabalhamos em simultâneo com todas as escolas um problema comum que foi identificado, a questão da discriminação.

A ideia é mapear as preocupações reais da escola, aquilo que é mais relevante trabalhar em termos dos Direitos Humanos, e a Amnistia Internacional – Portugal dá apoio, fornecendo materiais, fornecendo sugestões, e criando esta ligação quando os temas são comuns.

Faz todo o sentido continuarmos a trabalhar os temas em rede mas a ideia é que cada vez mais as escolas façam esse trabalho e tenham o seu plano ajustado ao que é a sua realidade, o seu contexto e as suas necessidades. É isso que vamos tentando fazer para que o projeto seja significativo dentro da escola, para que não seja só uma soma de atividades que nós propomos e que depois não têm o impacto real; nós queremos uma mudança estrutural dentro da escola.

Uma das coisas que também fomentamos é a criação de um grupo de trabalho dentro da escola o mais diversificado possível, com representação de todos os atores dentro da escola – professores, alunos, pessoal não-docente, pais -, o que é difícil, não pela falta de vontade mas porque é muito difícil logisticamente organizar horários com todos estes atores. A ideia deste grupo é que seja representativo da escola e da diversidade de atores dentro de cada escola, concretizando soluções diferentes.

Estamos a falar de escolas do ensino básico e secundário?

Nos primeiros anos, trabalhámos muito direcionados para o ensino secundário porque com a natureza do projeto era mais fácil trabalhar com este público-alvo, já com uma maior maturidade para trabalharmos outro tipo de questões. Mas aprendemos ao longo dos anos que temos de começar cada vez mais cedo. Esta é a perceção em todas as escolas e que também nos resolve o problema da rotatividade, porque com os jovens do ensino secundário temos dois ou três anos de trabalho e depois eles saem da escola.

Assim, começámos também a trabalhar com outros públicos e tentamos sugerir e organizar atividades para públicos mais jovens, incluindo o 1º ciclo. Há muitas escolas que no agrupamento em que estão inseridas trabalham muitas vezes com o jardim de infância e, ainda que seja pontual, nas ações de solidariedade, por exemplo, os mais pequeninos já estão envolvidos. Esta é uma área de atuação importante que estamos a tentar desenvolver.

Da experiência com as escolas já contempladas neste projeto, quais são os principais desafios que encontram nas escolas?

O principal é a questão da governança participada. Não é falta de vontade, mas acho que se deve ou à falta de boas práticas ou à falta de boas experiências de como é que se aplica na prática. No início do projeto, fizemos alguns exercícios para mapear o nível de participação dentro da escola, e o que vimos nas primeiras 6 escolas com que trabalhamos era comum:

existem todos os mecanismos de participação, estão todos previstos, existe a associação de estudantes, existe a representação no conselho geral, existem até associações de alunos, existem outros mecanismos de participação dos alunos, mas na prática não funcionam, porque muitas vezes os alunos não são ouvidos ou não são prioritários ou não existe orçamento para fazer aquilo que eles querem.

Portanto, esta parte da governança e da participação mais ativa de todos os elementos da escola é um desafio muito grande e ainda hoje continua a ser. O que tentamos fazer é capacitar os alunos que estão mais próximos do projeto, muitas vezes inseridos no grupo de trabalho que já falei, para a liderança, para estarem mais ativos, mas os próprios mecanismos dentro da escola dificultam, apesar de haver bons exemplos – por exemplo, uma das escolas ganhou uma sala de alunos que não tinha, o que foi uma vitória. Apesar de os alunos reconhecerem que existem os mecanismos de participação, eles próprios não se sentem preparados para uma participação mais ativa e, portanto, temos trabalhado mais nesta área.

Uma das coisas onde houve mais alterações foi a capacidade de alguns alunos para liderarem a sua organização, e isso é um ponto positivo.

Outra dificuldade é a abordagem holística. É um chavão que usamos muito mas que é muito difícil de colocar em prática, porque há muita conciliação a fazer e na prática é muito difícil, desde logo por questões como conciliar horários e planos de diferentes disciplinas; e depois também a própria forma de incluir estas questões dos Direitos Humanos nesta abordagem, quer seja ao nível da direção, ou dos conteúdos das disciplinas, não é nada fácil. Percebo perfeitamente os professores quando dizem que é uma abordagem que todos gostariam de implementar, mas que não é muito fácil trazê-la para o terreno.

Outra dificuldade tem a ver com a utilização de metodologias mais participativas dentro da escola. Temos alguma dificuldade em relação ao trabalho com os professores, não porque não o queiram fazer mas porque muitas vezes falta a capacitação dentro da escola para o fazer, falta formação nesta área, falta tempo – mudar de metodologia ou promover mais a participação dentro da escola exige tempo que muitas vezes os professores não têm. Mas naquilo que nós propomos e as atividades que são mais lideradas pela Amnistia Internacional – Portugal, não temos nenhuma oposição, aliás temos muito bons resultados, os alunos gostam imenso do tipo de atividades que são feitas, gostam imenso quando os próprios professores as lideram de outra forma.

O que podemos esperar de uma comunidade mais informada sobre os Direitos Humanos a nível social, económico e emocional?

O projeto tem este objetivo de ir além escola, de formar uma comunidade de Direitos Humanos. Neste projeto é mais difícil avaliar o impacto porque não tem um ciclo de vida, é um projeto a médio e longo prazo, mas que não tem um término porque vamos renovando este trabalho com as escolas, dependendo da disponibilidade destas e da vontade de continuar. Posso dizer que estamos com as mesmas escolas desde o início e temos só vindo a acrescentar, não houve nenhuma escola que fosse ficando pelo caminho.

Temos como objetivos e metas do projeto, capacitar não só a escola como a comunidade à volta para a questão dos Direitos Humanos. A educação para os Direitos Humanos tem como objetivo não só as pessoas conhecerem os Direitos Humanos mas no fundo agirem, estarem capacitadas para agir sobre os Direitos Humanos.

Neste sentido, o projeto procura capacitar não só a comunidade educativa mas as famílias, a comunidade à volta, e, por isso, o grupo de trabalho que referi pode ter, além de membros da própria comunidade educativa, membros de outras organizações ou instituições da comunidade local. Por exemplo, numa das escolas que já teve este grupo de trabalho, estavam presentes um representante do Centro de Saúde, um representante da GNR, através do programa Escola Segura, e havia pontes com outras entidades locais que também eram relevantes.

A ideia principal é capacitar a comunidade educativa para conhecer os seus direitos e para que assim também possa agir, reivindicando os seus direitos e protegendo os direitos das outras pessoas.

A ideia é não só trabalhar assuntos relevantes dentro da escola, como assuntos relevantes dentro da comunidade. Ainda não estamos neste nível, com exceção de algumas boas práticas muito pontuais em que se fala, por exemplo, de questões de pobreza que já eram do conhecimento das escolas e que estas, de certa forma, já trabalham. Temos uma experiência em Estremoz, que é um sítio mais isolado, em que grande parte das crianças vive longe da escola; esta não é uma questão de pobreza clara mas é uma questão de acessos, pois estas crianças têm muita dificuldade não no acesso à escola, porque têm autocarros, mas, por exemplo, se tiverem atividades fora de horas já não podem participar porque depois já não têm autocarro para voltar para casa. Este tipo de questões, de integração, de falta de acessos, também estão presentes quando trabalhamos este projeto dentro das escolas e também procuramos que a própria escola, e quem está a trabalhar à volta destes temas, possa contribuir com este tipo de soluções para a comunidade.

A nível social, tentamos que haja um impacto ao nível da comunidade local. Claro que em sítios pequenos é mais fácil mapear algumas coisas e em cidades maiores é muito mais difícil fazer isto, mas pelo menos tentamos que o projeto chegue às famílias, a associações que estejam mais próximas.

A nível emocional, temos tido muito boas experiências em particular com os alunos, que é quem vamos seguindo mais, com ex-alunos do projeto, com alunos que acabam por ficar envolvidos com a Amnistia Internacional – Portugal.

Os alunos acabam por se envolver noutras atividades que estão relacionadas com os Direitos Humanos, ou com temas que são mais do seu interesse; não digo que seja apenas na sequência do projeto, mas acredito que é a vivência no projeto durante os tempos em que estiveram na escola que os incentivou a continuarem a fazer algumas coisas nesta área. Há também uma componente afetiva de ligação entre as pessoas que participaram no projeto e a própria Amnistia, continuando a fazer coisas connosco. Posso dar um exemplo, estamos neste momento a desenvolver uma campanha com jovens, em que muitos deles são ex-alunos deste projeto, alunos que já estão na faculdade, já estão noutros percursos da sua vida e continuam connosco a tentar desenvolver algumas coisas que os preocupam, a tentar desenvolver alguns temas de Direitos Humanos e a trazer este tema para cima da mesa de discussão.

Acreditamos que o projeto tem também um impacto pessoal importante, até mesmo no percurso destes jovens porque vemos muitas vezes os jovens a dizerem que querem seguir uma área ligada aos Direitos Humanos ou à área social e, neste sentido, temos muito orgulho em promover esta mudança pessoal nos jovens que estão mais próximos de nós e que aí continuam.

Mais informações sobre o projeto ‘Escolas amigas dos Direitos Humanos’ here.

Conheça os cursos certificados da Amnistia Internacional – Portugal sobre Direitos Humanos here!

OUTRAS ENTREVISTAS

Pin It on Pinterest