“Estaremos preparados para devolver aos professores o tempo, o respeito e a estabilidade de que precisam?”

Com o final do ano letivo, dei por mim a refletir sobre o que significa hoje ser professor. Há profissões que não se escolhem apenas com a razão, escolhem-se com o coração. Durante muito tempo, ser professor foi uma dessas escolhas. Havia algo de quase poético na ideia de entrar numa sala de aula e acender luzes no pensamento dos alunos, de acompanhar o crescimento de crianças e jovens, de deixar uma marca invisível mas duradoura no tempo e no espaço. Será que essa chama ainda arde com a mesma intensidade? Ou estará a apagar-se lentamente, entre burocracia, cansaço e desilusão?
O que leva uma pessoa, hoje, a querer ser professor? Será ainda o entusiasmo de ensinar? Num tempo em que tantas profissões prometem reconhecimento rápido, melhores salários e maior flexibilidade, que lugar sobra para a docência? E o que será que diz sobre nós, enquanto sociedade, o facto de cada vez menos pessoas quererem ensinar?
Ser professor tornou-se, para muitos, um exercício de resistência. Resistência a salários que não acompanham o custo de vida nem a exigência da função. Resistência a uma carreira onde a progressão é lenta, incerta e, tantas vezes, frustrante. Resistência a anos de contratos precários, a deslocações constantes, a projetos de vida adiados. Quantos professores vivem anos sem saber onde estarão no próximo ano letivo? Quantos constroem a sua vida entre malas feitas e despedidas com sensação de déjà vu?
E depois há o peso invisível, que não aparece nos horários. A burocracia que cresce, insidiosa, ocupando o espaço onde antes havia tempo para pensar, preparar e inovar.
Mas talvez o que mais me inquieta seja a mudança no olhar da sociedade. Onde antes havia respeito, há agora, tantas vezes, desvalorização. Onde antes o professor era uma referência, há hoje contestação constante. Muitas vezes questiono-me, quando foi que deixámos de confiar em quem ensina? E, no entanto, há professores que continuam. Que entram na sala de aula com a mesma vontade de fazer a diferença. Que acreditam que cada aluno é, em si mesmo, um futuro por escrever. Mas até quando pode a vocação resistir sem reconhecimento? Estaremos dispostos, enquanto sociedade, a investir na educação não apenas em discursos, mas em condições concretas? Estaremos preparados para devolver aos professores o tempo, o respeito e a estabilidade de que precisam? Ser professor nunca foi apenas uma profissão, é um compromisso com o futuro. Mas o que parece que a sociedade varreu para debaixo do tapete, é que um compromisso exige reciprocidade e muitos professores sentem que dão muito mais do que recebem.
Se a escola é o lugar onde se constrói o futuro, cuidar de quem ensina deveria ser a prioridade, para que a chama se mantenha acesa.
Ana Silveira | Vice-Presidente da Associação Kokoro. Licenciada em Psicologia e dedicada a projetos de educação inclusiva.